Chawan Project: o universo dentro de uma tigela

Ciclo de palestras com ceramistas revela histórias e técnicas contidas na tigela japonesa

O chawan é um dos elementos mais básicos da cozinha japonesa. Essa tigela de cerâmica, onde se serve o arroz branco, foi escolhido como tema pela ceramista Hideko Honma para desenvolver um ciclo de encontros e palestras.

Logo do projeto, criado pelo designer Miguel Sanches, inspirado nas espirais que são marca dos trabalhos de Hideko Honma.

Se alguém fizesse uma lista de utensílios básicos da cozinha japonesa, certamente nela constaria o chawan. Em sua origem, o chawan era usado na cerimônia do chá: é em um chawan de cerâmica que se sorve a bebida, e apreciar a beleza desse objeto é parte do ritual. Assim, o chawan, singelo e atemporal em sua forma, tem desafiado os ceramistas a criarem peças ao mesmo tempo funcionais e artísticas há séculos, exigindo muita técnica e dedicação. E é isso que um ciclo de oito palestras, todos realizados na Japan House de São Paulo, do final de junho até dezembro, se propõe a desvendar: o universo contido dentro deste utensílio tão trivial e afetivo.

Batizado de “Chawan Project”, as palestras serão ministradas por quem mais entende do assunto no país: ceramistas japoneses que vieram morar no Brasil e aqui desenvolveram seus trabalhos. Akinori Nakatani, Kenjiro Ikoma, Kimi Nii, Shoko Suzuki e Shugo Izumi falarão sobre sua arte, histórias e o que os inspira na busca pelo chawan perfeito. Mitsue Yuba, ceramista herdeira na Comunidade Yuba, nascida no Brasil, traz a especificidade do autêntico chawan desta peculiar comunidade do Japão no Brasil.

E dá para falar tanta coisa sobre um chawan? A ceramista Hideko Honma, idealizadora e curadora do evento, acredita que sim. Afinal, todo ceramista faz chawan. Sua confecção exige desenvolvimento pessoal, disciplina e aperfeiçoamento constantes. A arte cerâmica também tem seu caminho, ou dô, como acontece com a cerimônia do chá (chadô) ou do arranjo de flores ikebana (kadô).

O público terá a oportunidade de conhecer mais sobre a arte cerâmica, a estética e a cultura japonesas, e também sobre a obra do ceramista que admira. Tudo isso a partir de um chawan.

Cena do filme “Ochazuke no Aji” (O sabor do chá verde sobre o arroz), de Yasujiro Ozu

No primeiro encontro, programado para este sábado, dia 30 de junho, será servido para os inscritos, um ochazuke, talvez o mais trivial dos pratos japoneses. Trata-se de uma porção de arroz, regado com chá verde. Sobre ele, um umeboshi, a ameixa japonesa em conserva. No evento, este serviço toma ares de performance, executado por Jun Sakamoto, o mestre do sushi. A proposta é sentir o básico do básico que está inserido dentro de uma tigela chawan. O ochazuke foi também uma referência adotada em um dos filmes de Yasujiro Ozu, um dos grandes diretores do cinema clássico japonês: “Ochazuke no Aji” (no Brasil intitulado “O sabor do chá verde sobre o arroz”). O filme fala de desencantos da vida cotidiana, mas que com certa dose de resignação, podem transformar a rotina em momentos de felicidade.

Um ochazuke típico: arroz branco, chá verde quente e umeboshi ao centro

 

SERVIÇO

Chawan Project 2018

Curadoria: Hideko Honma

Local: Japan House São Paulo (av. Paulista, 52 São Paulo SP)

Programação:

  • 30/6, das 11h às 13h: abertura do ciclo, com o mestre Shouichi Hayashi (Fundação Urasenke) e participação de Jun Sakamoto
  • 7/7, das 11h às 12h: Shoko Suzuki
  • 27/7, das 11h às 12h: Kenjiro Ikoma
  • 23/8, das 19h às 20h: Akinori Nakatani
  • 26/9, das 19h às 20h: Kimi Nii
  • 24/10, das 19h às 20h: Shugo Izumi
  • 16/11, das 11h às 12h: Mitsue Yuba
  • 15/12, das 11h às 13h: Mesa-redonda com mediação de Jo Takahashi

Gratuito, com distribuição de senhas, 1 hora antes.

Ceramistas convidados

Akinori Nakatani nasceu em Osaka, em 1943. Emigrou para o Brasil em 1974. Nakatani já fazia cerâmica no Japão. Seu primeiro ateliê foi estabelecido em São Simão, interior de São Paulo, onde fez tijolos e com eles construiu seu primeiro forno.

Kenjiro Ikoma nasceu na província de Mie, em 1948, e chegou ao Brasil em 1973. Seu grande mergulho nessa arte começou quando tinha 28 anos, como uma maneira de resgatar as lembranças do Japão e continua até hoje.

Kimi Nii é natural de Hiroshima, onde nasceu em 1947. Chegou ao Brasil ainda criança, em 1957. Começou a fazer cerâmica, em 1978, e seguiu desenvolvendo seu trabalho de maneira quase autodidata. Cria e executa peças de escultura e utilitárias.

Shoko Suzuki nasceu em Tokyo, em 1929. Começou a fazer cerâmica no Japão. Mudou-se para o Brasil em 1962, a fim de iniciar uma nova vida. Hoje, prestes a completar 89 anos, continua a criar e a fazer planos para o futuro.

Keiichiro (Souichi) Hayashi é representante da Fundação Urasenke no Brasil desde 2014. Nasceu em 1975 na província de Fukuoka. Sua família veio ao Brasil em 1978. Aprendeu o chadô com o mestre Sôkei Hayashi, a quem sucedeu nesse trabalho.

Shugo Izumi nasceu em 1949, no Japão. Mudou-se para o Brasil em 1975, estabelecendo-se inicialmente como agrônomo em Suzano, e aprendeu cerâmica em Cunha. Em 1976, construiu seu primeiro forno, em Atibaia.

 

 

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