O Pavilhão das Peônias, em Paris

O ano novo chinês está sendo comemorado em Paris com pompa e circunstância. Está em cartaz, até o dia 16 de fevereiro, no Théâtre du Châtelet a ópera clássica chinesa kunqu O Pavilhão de Peônias (Pavilion aux Pivoines) , em première europeia, estrelado por nada menos que Bando Tamasaburo (坂東玉三郎), o mais consagrado ator de Kabuki, especializado em onnagata, personagens femininos.

O ator de Kabuki, Bando Tamasaburô interpreta Du Liniang, uma garota apaixonada com 16 anos de idade.
Bando Tamasaburo, como a donzela Du Liniang.

Designado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 2001,  o teatro Kunqu teve origem há seis séculos na região de Jiangnan, e é anterior à Ópera de Pequim. Seu estilo sofisticado e a elegância das apresentações têm sido apreciado pelos aristocratas e acadêmicos.

O Pavilhão de Peônias é uma peça em estilo Kunqu, contando os amores de Du e Liniang Liu Mengmei, e é um épico de 55 atos, escrito em 1598 pelo poeta Xianzu Tang.

Para esta ocasião, Bando Tamasaburo selecionou três atos e seis cenas (mesmo assim o espetáculo excede 3 horas de duração, com intervalo): Promenade – Sonho – Retrato – Morte – Memória – Renascimento.  Trata-se de uma produção que já foi apresentada em Pequim, em 2008, e nos anos seguintes em Suzhou, Shangai, Hong Kong e Tokyo, com elogios unânimes da crítica. Bando Tamasaburo é considerado Tesouro Nacional Vivo pelo governo japonês, um título outorgado a um artista que preserva a tradição cultural japonesa em grau de excelência.

A peça concentra-se na história de amor entre Du e Liu Mengmei, mas a obra original estende-se também com narrativas sobre a queda da dinastia Song. O impressionante é que Bando Tamasaburo, com 62 anos, interpreta magistralmente a personagem Du, com 16 anos de idade. Em um belo dia de primavera, uma empregada convence Du Liniang, filha de importante oficial, Du Bao, para um passeio pelo jardim, onde ela acaba adormecendo. No sonho, Du Liniang encontra um jovem estudioso, mais tarde identificado como Liu Mengmei. No sonho começam um romance ardente. O sonho é interrompido por uma pétala de flor que cai sobre ela, que ganha posteriormente um monólogo (Reflexão sobre o sonho perdido). O mal do amor que não foi realizado consome Du Liniang, que acaba definhando, e morre.

Mas as forças do além acreditam que um casamento entre Du Liniang e Mengmei Liu está predestinado e resolvem que Du Liniang deve voltar à vida terrena, onde encontra então Mengmei Liu. Só que a surpresa é que ele está preso, acusado de ser um ladrão de túmulos e um impostor. Bem, a história ainda tem muito chão pra acabar, mas o final é feliz como a maioria das comédias chinesas. O imperador perdoa Mengmei Liu.

O importante nesta ópera são suas letras, altamente refinadas e sutis, considerada um dos pontos altos da literatura chinesa clássica. O lirismo do Pavilhão das Peônias está na composição de nuanças e metáforas que transgridem de forma elegante, a divisão entre a beleza na natureza e do universo interior, com seus desejos e emoções mundanas. Há um tom de otimismo jovial em toda a estrutura da peça, e o público é arrebatado pelo seu prazer literário e musical, uma celebração de sensibilidade. E foi uma referência a todas as outras óperas Kunqu que vieram posteriormente.

Em cartaz no Théâtre du Châtelet, até o dia 16 de Fevereiro.

Uma quase versão integral foi encenada no Lincoln Center for the Performing Arts, em 1999. Tinha 20 horas de duração e foi dirigido por Chen Shizheng. Provavelmente foi a encenação mais fiel ao original nestes 300 anos e estimulou o interesse do público por esta modalidade de ópera.

Veja aqui a entrevista de Bando Tamasaburo, sobre esta atuação em Pavilhão das Peônias.

 

Aqui o trailer.

Théâtre du Châtelet, 2 rue Edouard Colonne, 75001 Paris – 01 40 28 28 28

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