Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S.Paulo, 1 de Dezembro de 2015
Diplomacia serve para resolver problemas com os outros países, não o contrário. No caso da presidente Dilma Rousseff, cujas habilidades político-diplomáticas são poucas, a diplomacia deveria seguir um dos lemas da arquitetura modernista: “less is more”, ou ” quanto menos, melhor”.
O mais recente prejuízo que a presidente impôs à política externa brasileira foi cancelar na última hora uma viagem ao Japão e ao Vietnã. Sua assessoria alegou “razões de Estado”.
Se você pensou, como eu, que as “razões de Estado” são o maior escândalo de corrupção e o maior desastre ecológico de nossa história, nós erramos. As razões seriam mais comezinhas: o governo não pode mais empenhar despesas no Orçamento de 2015. Faz sentido?
Note-se que é a segunda vez seguida —a primeira foi em 2013— que a presidente cancela uma viagem ao Japão dias antes da data marcada.

No Vietnã, a visita serviria, entre outras coisas, para superar outro incidente diplomático causado pela presidente em 2012, quando o secretário-geral do Partido Comunista vietnamita foi informado, a caminho do Brasil, de que não seria recebido por Dilma, como esperado.
No mês passado, a presidente já havia deixado o príncipe Akishino, do Japão, esperando 20 minutos por uma visita para a qual ele havia cruzado o planeta. Quem conhece o Japão sabe que a única coisa mais grosseira que desmarcar um compromisso em cima da hora é deixar um visitante esperando. Dilma Rousseff fez os dois, em sequência.
O Japão é a terceira economia do mundo, polo de ciência e tecnologia e exportador líquido de capitais. Mas, sobretudo, o Japão é um país amigo, com quem mantemos fortes laços humanos e históricos há 120 anos, muito antes de Dilma Rousseff aparecer neste mundo. A presidente parece não gostar de cultivar amigos, mas o Brasil gosta —e precisa.
Visitas presidenciais exigem meses de planejamento e trabalho e mobilizam centenas de profissionais. Impõem, também, custos altíssimos com aluguel de carros, hotéis e organização.
As autoridades japonesas terão de explicar ao seu contribuinte por que desperdiçaram recursos com uma visita que nunca aconteceu. O governo de Dilma Rousseff não terá de dar satisfação a ninguém. Por isso, talvez, seja tão fácil cancelar.

CIRCULAR SECRETA
Pouca gente fora do ambiente diplomático sabe, mas, em maio de 2013, os postos do Itamaraty no exterior receberam uma circular secreta que instruía os embaixadores a tornarem sigilosos, por pelo menos cinco anos, todos os expedientes e documentos relacionados com visitas da presidente realizadas a partir de 1º de janeiro de 2011.
É um escárnio ao contribuinte que essa circular tenha existido e, mais ainda, que continue em vigor. As razões de segurança alegadas para sua existência não se sustentam. Ocultar os custos das viagens presidenciais nada tem a ver com a proteção da presidente —ainda mais falando-se de viagens já realizadas.
A menos que estejamos falando de outro tipo de proteção…
A presidente Dilma Rousseff pode cancelar todas as viagens internacionais que quiser, mas o povo do Brasil tem, pelo menos, o direito de saber quanto isso lhe está custando.


Alexandre Vidal Porto
Escritor e diplomata, mestre em direito (Harvard). Serviu na missão na ONU e no Chile, EUA, México e Japão. É autor de “Sergio Y. vai à América” (Cia das Letras). É colunista do jornal Folha de S.Paulo.
Na Folha de S. Paulo, 2 de Dezembro de 2015, a repercussão do cancelamento:
‘DESCONFORTO’
Nos bastidores, o governo brasileiro reconhece que a decisão de cancelar, pela segunda vez, a viagem da Dilma ao Japão –a primeira foi por causa dos protestos de junho de 2013– causou um “desconforto” e teve impacto negativo com o governo japonês.
Dilma seria recebida pelo imperador Akihito, uma deferência nem sempre concedida a chefes de Estado em visita ao país.
A presidente enviou uma carta com pedido de desculpas ao imperador pelo cancelamento, mas só no sábado (28), quando os anfitriões já tinham tomado conhecimento pela imprensa da decisão.
Apesar da expectativa de que Dilma se reunisse com o premiê japonês, Shinzo Abe, às margens da conferência do clima em Paris, houve apenas um rápido cumprimento entre os dois no fim de semana.
Segundo a Folha apurou, quando o Itamaraty entrou em contato com o embaixador do Japão no Brasil, Kunio Umeda, na tarde de sexta (27) para informá-lo da decisão, ele já estava em São Paulo para embarcar para Tóquio.
O Japão é o 6º maior parceiro comercial do Brasil e deveria ser anunciada na visita a reabertura do mercado japonês à carne bovina brasileira. As exportações tinham sido banidas em 2012, após um caso atípico de doença da vaca louca no país.
Em comunicado, a chancelaria japonesa “lamentou muito” o cancelamento da visita, “que iria acontecer num momento bastante oportuno para o fortalecimento das relações bilaterais”. O texto diz, contudo, que o Japão “continuará se esforçando para o desenvolvimento da parceria”.