O cineasta Walter Hugo Khouri (1929-2003) era um grande entusiasta do cinema japonês. Acompanha as projeções nos cinemas da Liberdade e delas tirava lições e influências que marcaram sua extensa filmografia. Em 1995, quando foi convidado pela Japan Foundation para visitar o Japão, juntamente com mais 14 especialistas brasileiros, entre os quais o crítico Rubens Ewald Filho, os críticos Inácio Araujo e Luis Carlos Merten, teve contato com cineastas como Kohei Oguri, Nagisa Oshima e Yoshishigue Yoshida. Este texto foi escrito antes de sua ida ao Japão.
INFLUÊNCIAS DO CINEMA JAPONÊS NA CONCEPÇÃO CINEMATOGRÁFICA DE DIRETORES BRASILEIROS

Texto de Walter Hugo Khouri(*)
A convivência de aficionados brasileiros com o cinema japonês começou no final da década de quarenta, com as exibições que se realizaram no cine São Francisco, situado atrás da Faculdade de Direito de São Paulo, onde alguns filmes passavam até sem legendas, fato que não afastava os espectadores paulistas, fascinados com a novidade.
Esses espectadores eram jornalistas, críticos, jovens universitários e intelectuais amantes de cinema, que imediatamente descobriram na produção japonesa um dos pontos altos da criatividade na sétima arte. Foi uma revelação marcante, que permitiu que através das décadas de cinquenta, sessenta e até parte de setenta,, o hábito de frequentar cinemas japoneses (que chegaram a ser quatro, exibindo dezenas de filmes) passasse a ser uma assiduidade semanal para os paulistanos interessados na produção nipônica.

Foi assim que tomamos conhecimento, maravilhados, com o cinema de YASUJIRO OZU, HEINOSUKE GOSHO, MIKIO NARUSE, BUNTARO FUTAKAWA, TEINOSUKE KINUGASA, TOMU UCHIDA e muitos outros. Um cinema de incrível variedade e altíssimo nível de criatividade de seus cineastas de primeira linha, que a todos impressionou e marcou. Eu, pessoalmente, lembro-me, entre outras coisas, da forte emoção que me causaram VIDA DE ARTISTA de Buntaro Futakawa e O CRIME DA QUINTA de Kinugasa, ainda ao tempo das primeiras exibições, que davam uma amostra de cinema de excepcional qualidade formal e temática, com perfeito acabamento técnico, plástica inigualável e atores soberbos.

Mas foi a descoberta do cinema “intimista” japonês, o cinema dos já citados Naruse, Ozu, Gosho, de Hideo Ohba e muitos outros, assim chamado por abordar temas de vida cotidiana, familiar ou individual, relacionados com os problemas e fatos comuns da existência das pessoas de todas as classes no seu dia a dia que marcou de forma especial, fortemente, muitos dos espectadores brasileiros (que no começo eram apenas alguns, perdidos na platéia entre os elementos da colônia, mas logo tornaram-se um número ponderável), vindo posteriormente a exercer uma influência sutil e inconsciente na obra de alguns daqueles espectadores que mais tarde se tornaram cineastas.
É importante notar que essa influência, só mais tarde verificada, veio diretamente do contato dessas pessoas com as obras exibidas nos cinemas paulistas, e não dos filmes que começaram a ganhar fama para o cinema japonês nos Festivais Internacionais a partir de 1950, como RASHOMON e OS SETE SAMURAIS de Akira Kurosawa ou A VIDA DE O’HARU e CONTOS DA LUA VAGA APÓS A CHUVA de Kenji Mizoguchi e outros, obras com forte presença de elementos exóticos e típicos, geralmente ambientados em épocas passadas, os chamados filmes “de costume” ou “de samurai”, com música , vestimentas, cenografia e outras características de períodos mais antigos, com personagens nobres, distanciados de certa forma da temática e da estrutura do cinema intimista mais autêntico, que tanto nos impressionava e ao qual não tinha acesso a maioria dos grandes centros cinematográficos de todo mundo, que recebiam sua dose de cinema nipônico diretamente de Veneza e Cannes. Nesse sentido, a cidade de São Paulo teve um grande privilégio e a fortuna de proporcionar aos seus cinéfilos a visão dessas obras-primas, já que era, e é, a maior cidade “japonesa” fora do Japão.
No que se refere ao meu cinema, muitas vezes apontado como o maior exemplo dessa influência, devo dizer que ela se processou, como já disse, de forma quase inconsciente e muito sutil, tendo sido notada primeiramente por outros, antes que eu já tivesse a noção desse fato, através da percepção de dados de estilo, de ritmo e de abordagem de certos problemas, além do “tom” intimista e existencial presentes em muitas das minhas obras. Ao verificar essas observações de outros sobre o meu próprio trabalho pude constatar que era um fato verdadeiro. Eu realmente “absorvera” muito do que o cinema japonês e o intismimo de seus mestres me transmitiram através dos anos, e isso era possível de verificar em diversos filmes, tanto os branco-preto como os coloridos, posteriores a 1970. Eram características de “timing”, de composição, de trabalho de câmera, de plástica, de cor, de montagem, de assunto e de atmosfera, muito perceptíveis às vezes. Esse é um fato que muito me orgulha, principalmente por ter sido uma “absorção”e não uma influência voluntária ou o segmento de um modismo, como soe acontecer.

Um pequeno número de outros cineastas também sofreu, de algumas forma e em níveis diversos, certa influência do cinema nipônico. Poderia citar principalmente a Carlos Reichenbach, que é um grande admirador da chamada “nouvelle vague” japonesa, surgida a partir dos anos sessenta, com os vigorosos filmes de Yoshishigue Yoshida, Shoei Imamura, Nagisa Oshima, Yasuzo Masumura, Seijun Suzuki e outros. É um cinema em que a violência, a revolta, o inconformismo e o sexo predominam, com alto nível artístico. Essa tendência produziu algumas películas soberbas no Japão, que chegaram até nós já numa segunda fase, antes que as salas que exibiam filmes japoneses fechassem e a indústria nipônica entrasse em crise. Em muitas obras de Reichenbach a influência desse cinema é muito visível e positiva, absorvida de forma consciente e colaborando muito para o resultado dos filmes, nos quais o ritmo, um certo clima anárquico, a montagem, os personagens e liberdade de concepção lembram incisivamente a nouvelle vague do Japão.
A influência dos intimistas da linha Ozu-Gosho-Naruse pode ser percebida também no cinema de Rubem Biáfora, diretor e crítico de vanguarda, que foi um dos primeiros, senão o primeiro, a chamar a atenção para os filmes japoneses, desde o primeiro momento de sua aparição, tendo acompanhado e registrado todas as películas que passaram em São Paulo em sua coluna “Indicações da Semana”, publicadas até recentemente em O Estado de São Paulo, com fichas técnicas e artísticas completas, constituindo-se numa preciosa fonte de dados sobre a presença do cinema nipônico em nossa cidade.

O segundo filme de Biáfora, intitulado O QUARTO, tem profundas influências do que melhor existiu no intimismo japonês, talvez mais do que qualquer outro filme brasileiro, no seu despojamento, sua visão humanista da miséria e dos problemas cotidianos, abordados com extrema sensibilidade.
O movimento intitulado de Cinema Novo, cuja produção se concentrou principalmente no Rio de Janeiro nos anos sessenta, também registra alguma influência do cinema japonês, mas desta vez pela via dos filmes que chegaram à Europa e a todo o Ocidente através dos festivais europeus já citados, sem nada a ver com o intimismo ou a nouvelle-vague que chegaram a São Paulo através de décadas, numa amostragem muito mais extensa da variedade do cinema que se fazia no Japão. O segundo filme de Glauber Rocha, “Deus e o Diabo na terra do Sol”, tem características marcantes do que se convencionou chamar estilo “samurai”, principalmente na marcação dos atores, nos gestos largos, gritos e movimentação quase coreográfica, que lembram imediatamente a mise-en-scène de alguns filmes de época do Japão, apesar de a ação se desenrolar no sertão nordestino do Brasil. Também alguns filmes do cineasta Rui Guerra apresentam sinais dessa influência.

credito que alguns outros filmes de cineastas brasileiros poderão apresentar alguns sinais, voluntários ou não, dessa mesma influência, o que só poderá ser verificado com uma cuidadosa revisão da produção brasileira, que algum dia será feita. De qualquer forma, penso que é um fato inédito e curioso a existência dessa presença de similitudes de estilo, de forma e conteúdo, vindo do cinema de um país tão distante como o Japão para obras de cineastas do Brasil, um país sempre aberto apenas aos grandes movimentos e modas europeus e americanos, que chegam através de grande marketing e publicidade, enquanto a produção japonesa nos chegou e marcou sua presença e influência através da simples e discreta exibição de suas obras-primas, para públicos restritos mas apaixonados, que as absorveram com espontânea e verdadeira admiração.

(*) Walter Hugo Khouri, considerado um dos grandes cineastas brasileiros começou a fazer cinema em 1953 com “O Gigante de Pedra” e desenvolveu uma das obras mais coerentes do cinema brasileiro. Seus filmes de destaque foram produzido na década de 60: “Noite Vazia” (1964), “Corpo Ardente” (1966) e “As Amorosas” (1968).Realizou 25 longas metragens, conquistando prêmios brasileiros e internacionais. Faleceu em 2003.
Estudioso da literatura, iconografia e filosofia japonesa, nos anos 50 escreveu artigos sobre cinema japonês no jornal O Estado de São Paulo. Fez alusões à cultura japonesa em filmes como Noite Vazia e Eros, tendo contado com a participação da atriz nikkei Célia Watanabe.