A origem sagrada do saquê

Texto extraído do livro “Izakaya: Por dentro dos Botecos Japoneses” (Jo Takahashi, Editora Melhoramentos, 2012)

 

A origem do Japão é narrada por sua mitologia. No início, deuses, animais e humanos viviam em harmonia na Terra, conhecida então como a terra de Izumo. Os seres humanos eram gratos aos deuses, pois as suas forças sobrenaturais os protegiam dos animais e monstros.

A paz reinante era perturbada quando Izanagui, o rei de todos os deuses se desentendia com a sua mulher, Izanami, por causa dos filhos. Essa disputa gerava feras que ficaram conhecidos como Oni, e os dragões, que surgiam das plantas que sugavam o sangue dos deuses, enfraquecendo-os.

Ilustração: Mika Takahashi, para o livro “Izakaya: Por dentro dos botecos japoneses” (editora Melhoramentos)

Uma dessas criaturas era o Yamata-no-Orochi, a grande serpente de oito cabeças. A serpente voraz ordenou a um casal que fosse feito um sacrifício de suas oito filhas, uma a cada ano para aplacar a sua fome.  As donzelas foram sendo consumidas uma a uma, até que só restou a última, a princesa Kushinada. Nisso surgiu o deus Susano’o-no-Mikoto, filho de Izanagui, que se apaixonou pela princesa Kushinada, à primeira vista, quando a viu em prantos, junto a seus pais, pedindo para não ser sacrificada. Susano’o então declarou ao Rei que iria dar um fim a Orochi, e em troca, pediria a mão da princesa em casamento.

Ilustração: Mika Takahashi, para o livro “Izakaya: Por dentro dos botecos japoneses” (editora Melhoramentos)

Foi marcada a cerimônia de sacrifício da princesa Kushinada. Para este dia, Susano’o orienta os pais da princesa a preparar um saquê fortíssimo, fermentado por oito vezes. Depois, instalou oito portais, e atrás deles, colocou estrategicamente os barris de saquê.

Ilustração: Mika Takahashi, para o livro “Izakaya: Por dentro dos botecos japoneses” (editora Melhoramentos)

Eis que surge Yamata-no-Orochi, fazendo a terra tremer com seus passos. Mas o monstro é seduzido pela curiosidade, enfia o longo pescoço pelos portais e alcança os barris. E num gole, cada cabeça mergulha em um barril. Logo vem o efeito do saquê potencializado e a fera se derrete em sono profundo.

Ilustração: Mika Takahashi, para o livro “Izakaya: Por dentro dos botecos japoneses” (editora Melhoramentos)

Susano’o então se revelou um espadachim audacioso. Afinal era ele o deus do mar das tempestades. Com sua espada, decaptou cada uma das cabeças da serpente.  Cortou-lhe a cauda também, de onde surgiu uma espada, que foi oferecida à irmã mais velha de Susano’o.

Susano’o se casa com a princesa Kushinada e resolve se instalar lá mesmo, nas terras de Izumo. Ao construir o seu palácio, ele teria escrito o seguinte poema:

Yakumo tatsu

Izumo yaegaki

Tsuma-gomi ni

Yaegaki tsukuru

Sono yaegaki wo

Numa tradução aproximada:

Oito nuvens no céu erguidas

Em Izumo oito cercados

Oito cercados ergui

Para minha esposa proteger

Ah! Esses oito cercados

(Tradução de Geny Wakisaka, 1977)

 

Esta passagem da mitologia foi descrita em Kojiki (古事記 ou Registro das Coisas Antigas), a primeira antologia poética do Japão, escrita em 712. O poema, com uma métrica rigorosa, de 5-7-5-7-7 sílabas poéticas, ficou conhecida como waka.

O saquê sempre esteve intimamente ligado aos rituais xintoístas no Japão, onde cumpre o papel de oferenda aos deuses. Seus ingredientes são água e arroz, simplesmente. Há registros na China, que datam de 2000 anos antes de Cristo, onde ela já aparece como bebidas dos deuses. E no Japão, há divindades como Ookuninushi-no-Mikoto e Sukunahikona-no-Mikoto, considerados deuses do saquê.

Cena do anime “Your Name” (Kimi no Na Wa), mostrando um ritual de Kuchikami-zake, onde jovens virgens cospem o arroz mastigado em uma vasilha, para promover a fermentação por meio da sacarificação produzida pela enzima da saliva. Trata-se de um ritual xintoísta que data de milênios, para produzir o saquê.

O saquê, assim como muitos produtos fermentados, foi descoberto por acaso, quando alguém esqueceu o arroz mofando, iniciando um processo de fermentação natural. O arroz havia se transformado em mingau fermentado. Consumido, ele provocava alterações de estado de espírito devido ao seu teor alcoólico. Passaram-se séculos até os japoneses entenderem o processo da fermentação, e saber controlá-la para obter o melhor gosto para a bebida.

No século 8, o Palácio Imperial em Heiankyo, atual Kyoto, passou a admitir trabalhadores encarregados de produzir o saquê. Assim, o Palácio tinha a produção sob controle para as oferendas religiosas, nas festividades, e também para o próprio consumo da corte. Na época, o saquê era de uso restrito da corte imperial.

The Indispensable Guide to Sake and Japanese Culture – The Talkative Man
Produção de saquê no período Edo: popularização da bebida

Somente mais tarde, o saquê é liberado para o consumo da população, especialmente durante as apresentações de teatro Kabuki.

O saquê ainda era um mingau em meados do século V a.C, no chamado período Nara (O período tem início quando a imperatriz Genmei transfere a capital imperial para Nara, cuja construção baseava-se na capital chinesa Tang), pois nesta época os produtores ainda não conheciam as técnicas de fermentação. Isso só veio a acontecer séculos e séculos depois transformando o mingau em bebida.

E mais, saquê só veio se tornar o nome próprio da bebida feita de arroz por conta dos estrangeiros e da falta de comunicação. Explico: saquê, no Japão antigo se referia a qualquer bebida alcoólica e a bebida fermentada de arroz se chamava Nihonshu (Nihon = Japão / Shu = saquê). Os estrangeiros viam comumente os japoneses falando “saquê” ao tomar nihonshu e assim foi feita e espalhada esta assimilação.

(veja mais no livro “Izakaya: Por Dentro dos Botecos Japoneses”) 

Veja também a completíssima matéria, Tudo o que você precisa saber para degustar o saquê, a bebida nacional japonesa, escrita por Roberto Maxwell especial para Direto do Japão

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