“Mães de Verdade” de Naomi Kawase entra em cartaz

O novo filme de Naomi Kawase traz à tona o tema da adoção de filhos e explora, com profundidade, os pontos de vista dos dois lados: o da mãe que adota e a mãe biológica. 

Naomi Kawase é provavelmente o nome de maior evidência no cinema japonês contemporâneo. Além de suas premiações internacionais, Kawase foi escalada para realizar o documentário das Olimpíadas de Tokyo, inicialmente programadas para acontecerem em julho e agosto de 2020, e adiada por conta da pandemia para 2021. Mesmo com todos os riscos e insegurança que permeiam a realização deste acontecimento, é quase certo que as Olimpíadas acontecerão, em um formato inédito na história destas competições: sem a presença de público do exterior, pois as fronteiras para turistas continuarão fechadas no Japão. E mesmo o público interno será bem reduzido, com uma ocupação dos estádios rigorosamente controlados em 50%. Impossível não comparar com o super documentário que Kon Ichikawa dirigiu para as Olimpíadas de Tokyo de 1964, que se tornou um marco cinematográfico, inovando a linguagem dos documentários. O filme, com 169 minutos, foi também um precursor no uso de potentes teleobjetivas, que captaram detalhes dos atletas e a reação do público, revelando uma faceta intimista do esporte. 

Cartaz do Filme “Olimpíadas de Tokyo”, de 1965, direção de Kon Ichikawa

É certo que o adiamento das Olimpíadas alterou as prioridades de Kawase. Como ela já tinha os direitos de filmagens de Asa ga Kuru (朝が来る, ou literalmente: Vem a manhã) de Mizuki Tsujimura, escritora que conquistou o prêmio Naoki Sanjugo (uma das láureas mais importantes da literatura japonesa, criado em 1935, pelo escritor Kikuchi Kan) pelo romance Kagi no nai Yume wo Miru (鍵のない夢を見る, lit. I Saw a Dream Without a Key), em 2012, Kawase resolveu dar início às filmagens de Mães de Verdade, título brasileiro da adaptação cinematográfica para Asa ga Kuru. O título original do romance foi mantido na versão original e é inspirador, o leitor só vai entender no final do livro. “Asa” é manhã, mas também o nome da criança adotada, Asato, abreviado. 

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Naomi Kawase tem uma filmografia calcada em temas sobre relações familiares e sociais. Mães de Verdade penetra fundo neste universo quando disseca as consequências da adoção de uma criança. Para a diretora, foi também uma experiência pessoal e íntima, pois ela própria foi criada numa família adotiva. “Foi como relembrar as minhas experiências de infância”, relata a diretora, que cresceu intrigada como pessoas que não compartilhavam do mesmo sangue podem viver debaixo de um mesmo teto por tanto tempo. O romance original, de 2015, mostra a história da adoção de uma criança, e suas consequências, seis anos depois. O roteiro foi colaborativo: Naomi Kawase, Izumi Takahashi (roteirista) e An Tôn Thât (músico) se uniram para transformar o romance original de Mizuki Tsujimura em filme. 

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE
Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

“Por conta do destino, uma vida que não era para existir chega à vida de um casal que não podia ter filhos. Essa é uma história sobre criar o próprio destino, como, se, depois da chuva, uma luz radiante purificasse o mundo”, é definição que a diretora dá ao seu filme. Para contar essa trama, o longa foi filmado em várias locações diferentes no Japão: numa ilha (ilha de Ninoshima, em Hiroshima), na floresta (província de Tochigui), na cidade (na realidade, na área da Baía de Tokyo) e num centro histórico (Nara). “Fizemos esse filme como se fosse uma lembrança de viagem através das estações do ano e personagens de cada lugar”, revela a diretora. 

MÃES DE VERDADE foi selecionado para o Festival de Cannes, que, mesmo cancelado, anunciou os filmes que exibiria, dividindo-os em seções. O longa esteve na The Faithful (Os fiéis, em tradução livre), que comporta obras de diretoras e diretores que já tiveram ao menos um trabalho exibido no festival antes. O filme também foi exibido nos Festivais de San Sebastian, Chicago e Toronto. No Brasil, estreou na 44a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Como na maioria dos filmes da cineasta, as personagens principais são femininas, e aqui duas mulheres têm seus destinos ligados por uma adoção: uma delas se resignou a um futuro sem filhos, por conta da infertilidade do marido, e outra ficou gravida inesperadamente, e ama o filho profundamente, mas não o pode criar. A produtora do longa, Yumiko Takebe, define-o como “sobre as escolhas que essas personagens fazem, que se tornam um segredo bem guardado. E isso me trouxe muitas dúvidas e até sentimentos próximos da raiva [quando li o livro]. Essa história tem uma mensagem importante que fala ao mundo de hoje. Por isso acredito que esse era o momento de fazer o filme.”

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Kawase, por sua vez, conta que quando faz um longa, sempre há um momento no qual é a levada às lágrimas. “É quando o elenco habita completamente a vida dos personagens, e expressa emoções que vão para além do roteiro. Percebi que isso é algo precioso e raro. O elenco nesse filme está incrível – os personagens são pessoas completamente reais.” Kawase orienta a todos os atores, assumirem os nomes dos personagens do filme, mesmo nos bastidores. É uma forma de interiorizar o personagem, e fazer com que a atuação seja gerada de dentro. 

Ryan Lattanzio, da IndieWire, em sua crítica afirma que “Kawase junta todas as pontas de maneira bela no final.” Já Peter Bradshaw, do jornal inglês The Guardian, escreveu que admira “a estética feminina do filme e a interpretação profundamente comprometida da atriz principal”.

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Sinopse

Kiyokazu Kurihara (Arata Iura) e Satoko (Hiromi Nagasaku) são um casal que, no desejo de ter um filho, adota um bebê. Seis anos depois, enquanto vivem um feliz casamento, eles recebem uma ligação de uma mulher chamada Hikari Katakura (Aju Makita), alegando ser a mãe biológica de Asato (Reo Sato), o filho adotado do casal. Hikari diz querer seu filho de volta, chantageando a família com a pedida de uma alta quantia de dinheiro.

Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Ficha Técnica

Direção: Naomi Kawase
Roteiro: Naomi Kawase, co-escrito por Izumi Takahashi e An Tôn Thât, baseado no romance “Asa ga Kuru”, de Mizuki Tsujimura
Produção: Yumiko Takebe
Elenco: Hiromi Nagasaku, Arata Iura, Aju Makita, Miyoko Asada
Gênero: drama
País: Japão   Ano: 2020   Duração: 140 min   Classificação: 14 anos.
Lançamento: Califórnia 

Naomi Kawase Photo ©2020 “Asa ga Kuru” FILM PARTNERS/ KINOSHITA GROUP, KUMIE

Naomi Kawase (河瀬直), diretora de cinema, natural da província de Nara. Um de seus trabalhos iniciais, “Embracing” foi um documentário em 8mm e muito aclamado na época. Seu primeiro filme comercial foi “Suzaku” (Moe no Suzaku), de 1997, com o qual conquistou o prêmio Camera D’Or no Festival de Cannes. Participou diversas vezes do Festival de Cannes, e em 2007 ganha a Palma de Ouro, com “A Floresta dos Lamentos” (Mogari no Mori). Também recebeu o prêmio Juri Ecumênico por “Radiance”, em 2017. Agora prepara-se para filmar o documentário sobre as Olimpíadas e Paralimpíadas de Tokyo. Já gravou 380 horas dos bastidores da preparação do grande evento, e diz que vai realizar o filme, mesmo que as Olimpíadas sejam canceladas de última hora. O lançamento do filme está previsto para 2022. 

Assista ao trailer. 

Em São Paulo, o filme entra em cartaz no Reserva Cultural e no Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca. 
Em Brasilia, no Espaço Itaú de Cinema 5. 
Na próxima semana, entra em cartaz no Rio de Janeiro. 

Crítica 
Mães de Verdade” reitera o dom de Naomi Kawase para captar o mínimo”, de Cássio Starling Cassio (Folha de S.Paulo) 

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