Naruse: a melancolia da vida simples

Cartaz original de Vida de Casado (Meshi), em cartaz no SESC Pinheiros, somente nesta terça feira

“Vida de Casado” é o filme que Jojoscope destaca para esta terça-feira, dentro da programação Japão em 4 Cinemas, no SESC Pinheiros.

Serviço

Japão em 4 Cinemas

Exposição de cartazes – Mostra de filmes (até 17/07)

Mostra de filmes (sempre às terças) Veja a programação dos filmes aqui.

Local: SESC Pinheiros Auditório e hall dos elevadores (ala Paes Leme,  3º andar) Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros Tel: 11 3095-9400 (estacionamento no local)

Entrada gratuita

VIDA DE CASADO

MESHI

Sinopse:

Hatsunosuke Okamoto e sua esposa Michiyo mudaram-se de Tóquio para um humilde bairro, em Osaka. Embora tenham se casado por amor, a paixão abrandou-se com o passar dos anos. Não tendo filhos de quem cuidar, torna-se cada vez maior a insatisfação de Michiyo com seu dia-a-dia. Trabalhando numa pequena firma de seguros, Hatsunosuke não tem qualquer chance de promoção. Problemas mais sérios, porém, surgem com a chegada de Satoko, sobrinha de Hatsunosuke. Michiyo continua presa aos afazeres domésticos, enquanto o marido e Satoko saem a passeio. O descontentamento de Michiyo faz com que tenda a agravar e mesmo distorcer pequenos incidentes cotidianos. Ao descobrir que Satoko, tem saído com um rapaz da vizinhança, repreende-a, decidindo levá-la de volta a Tóquio. Lá resolve procurar um emprego e não retornar à sua casa. Rejeita as investidas de seu primo Kazuo e, a seguir, ao saber que ele comçou a sair com Satoko, se dá conta, finalmente, de que seu lugar é junto de Hatsunosuke.

Notas:

O filme é baseado numa obra inacabada da popular escritora Fumiko Hayashi. A refinada composição dramática do roteiro e a descrição precisa dos mais íntimos sentimentos de uma mulher são elementos centrais dos estudos psicológicos típicos do diretor Mikio Naruse. Vida de casado é um excelente exemplo de sua habilidade para revelar os sofrimentos que se escondem sob a superfície tranquila do cotidiano.

Após um longo período de fracassos, Naruse conquistou um grande sucesso com este filme, tendo-se tornado, a partir daí, o mais popular diretor de temática feminina no Japão.

MIKIO NARUSE (1905 – 1969)

Naruse: retratista da melancolia da vida simples

Sua filmografia inicia-se na última fase do cinema mudo, no começo da década de 30, e vai até as obras de aguçado comentário social e humanístico da década de 60. Naruse tinha uma visão extremamente melancólica da existência humana e seus filmes refletem esta postura. Um de seus temas mais consistentes é a crítica aos valores sociais típicos do Japão. As mulheres, por exporem com maior frequência este problema, não raro são as protagonistas da maioria de seus filmes. Sua própria experiência de vida teria talvez moldado estas características: órfão, Naruse teve que frequentar uma escola técnica com muitas dificuldades, apesar do gosto pela literatura, trabalhando já aos 15 anos. Aos 21, ingressa na Shochiku como contra-regra, mas devido à sua timidez não consegue se tornar diretor, numa época em que bastava um pouco de treinamento para se ter a oportunidade de dirigir um filme. Ozu, Gosho e Shimizu, seus contemporâneos, ascendiam ao cargo de direção. Inconformado, pede demissão, no que é impedido por Gosho, que o convida para ser seu assistente. Tem uma forte inclinação pelos melodramas e comédias leves retratando a humilde vida dos assalariados, como Ozu, mas o presidente da Shochiku veta-o afirmando que “basta um Ozu” na produtora. Passa a desenvolver seu trabalho na produtora PCL, onde realiza o seu primeiro filme sonoro. Tsumayo, bara no yôni (Wife! Be like a rose), 1935, teve a classificação máxima na revista Kinema Jumpô, ainda hoje um dos meios mais eficientes de medir a qualidade dos filmes. Casou-se com a estrela Sachiko Chiba, produzindo então diversos filmes que realçavam a sua beleza. Mas a partir dessa época, por infelicidade, Naruse sofre um depressão que dura 15 anos, durante os quais não consegue realizar nenhum trabalho de destaque. Separa-se de Sachiko e só em 1951 consegue recuperar-se, lançando Vida de casado, filme participante desta Mostra, baseado no romance de Fumiko Hayashi. Outras adaptaçãos das obras dessa escritora também tiveram êxito: Inazuma (Lightning), 1952, Bangiku (A flor do crepúsculo), 1954, e o sucesso fenomenal O amor que não morreu, 1955, todos girando em torno de mulheres de classe baixa e média mantendo com fibra a sua integridade e independência financeira. O estilo de Naruse é simples, usualmente com tomadas confinadas no interior das casas da classe trabalhadora, requisitando o mínimo de movimentos de câmera. Detestava locações, evitando-as ao máximo. Como Ozu, procurava enfocar o significado dos objetos e captar as sutilezas das expressões faciais e pequenos movimentos do corpo.

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