A Casa Triângulo inaugura no dia 14 de abril, a partir das 20h a mostra individual do artista plástico Rogério Degaki intitulada “O Pássaro Azul”. Serão exibidas oito obras inéditas produzidas em 2011, sendo cinco esculturas, duas pinturas e uma instalação composta por pequenas peças em formato de balas. A exposição poderá ser vista na sala principal e mezanino da galeria até o dia 07 de maio.

Exposição Rogério Degaki – O Pássaro Azul
Texto Rodrigo Linhares
Local
Casa Triângulo – www.casatriangulo.com
Rua Paes de Araujo 77, 04531-090 São Paulo Tel. (11) 3168-1640
Abertura
14 de abril, quinta-feira, das 20h às 23h.
Período
de 15 de abril a 7 de maio de 2011.
Horário
terça a sábado, das 11h às 19h.
Técnicas
Isopor, resina plástica, fibra de vidro, tinta automotiva e tinta óleo sobre tela.
Créditos das imagens
Edouard Fraipont


O Pássaro Azul
por Rodrigo Linhares
“O Pássaro Azul”, filme de 1940, é uma clássica história sobre os poderes da natureza, a inocência e as transformações relacionadas às mudanças da infância para a vida adulta. Contada de maneira simples, a narrativa do filme acompanha a personagem Mytyl, vivida pela atriz Shirley Temple, que acompanhada de seu irmão TyTyl, é guiada por uma fada madrinha em uma fantástica viagem através do passado, presente e futuro em busca do lendário Pássaro Azul da felicidade. Em cada lugar visitado pelas crianças uma espécie de ensinamento para a vida é aprendido e, embora com roupagem fantasiosa, nos coloca diante de interrogações sobre a morte, a melancolia, a lembrança e o esquecimento”.
Imbuídas de um sentido poético, as esculturas de Rogério de Degaki tratam de forma sutil e silenciosa de questões relacionadas ao corpo, à sexualidade, à morte e à melancolia. Sua obra habita um mundo de artificialidade instituído pelos contos de fadas, a televisão, a cultura pop, o anime, e as revistas em quadrinhos. Seu repertório visual inclui desde personagens fictícios de natureza fantástica até paisagens e ambientes nos quais conceitos como duplicidade e espelhamento atuam em âmbito de igualdade com os campos de interesse subjetivo do artista.

Na série que será apresentada na exposição da Casa Triângulo, assistimos a uma cristalização deste conjunto de referências, e talvez por este motivo, as escolhas dos temas sejam para Rogério Degaki tão significativas. Elas confirmam a recorrência do recurso à memória de infância, não como uma estratégia literal de narrativa ou ilustração, como o título sugere, e sim como um exercício de resistir ao esquecimento e ao mesmo tempo se mantendo distante da possibilidade de ter a memória reavivada, conservando assim apenas os fragmentos necessários para as suas elaborações.
Logo à entrada da galeria está a obra central da mostra com seus 2,30m de altura em azul cintilante, o próprio Pássaro Azul. Sua forma incorpora circunstâncias espaciais a elementos da ordem do projeto e escala. A materialidade da peça em resina revestida com tinta automotiva, marca registrada na obra do artista, apresenta uma superfície de lisura perfeita que remete a um processo semelhante ao de lapidação de pedras preciosas. Degaki transforma materiais comuns em modelos ideais, tangenciando a forma industrial pura e o domínio absoluto da técnica.
O deslocamento e o estranhamento também são solicitados na construção das peças e constituição dos espaços onde são expostas, potencializado pela presença e posição dos objetos em situações improváveis. Como a dupla de Belvederes em ouro e prata (Mytyl e Tytyl?), figuras cabisbaixas colocadas em beiradas próximo ao mezanino da galeria, como se estivessem em parapeitos prontas para se atirar num suicídio impossível de um belvedere melancolicamente baixo demais. Esta aparente duplicidade é vista também em outras peças da exposição, como o par de olhos de brinquedo mega ampliados Temple (castanho) e Sinatra (azul) que observam de cima do mezanino, ou as duas telas de grandes dimensões colocadas frente a frente, que reproduzem padronagens no estilo das estampas Jacquard, formando uma espécie de espelhamento as avessas e propondo uma troca de lugares entre as cores esmeralda e bege. Fica claro em todos os casos, que tal duplicidade não exerce a mera formalidade, pois o que está em jogo não é uma geometria, mas mais precisamente a forma como as relações se compõem a partir da subjetividade de quem vivencia o trabalho.
Numa exposição que agrupa uma diversidade de obras, muitas das quais idealizadas há alguns anos e só agora concretizadas, é inevitável que algumas assumam certo protagonismo. E sem dúvida nenhuma, os momentos mais impactantes dentro deste percurso são aqueles onde fica evidente que a prática artística e a relação direta com a estética da artificialidade passam a servir a Degaki como códigos de representação sem perder o seu vigor.
Na sua totalidade, poderíamos designar a essência da obra de Rogério Degaki como diários e arquivos do tempo, do passado e do presente (do faz de conta, do simbólico), da vida. Da dele e da de todo mundo. Enfim, da lembrança e do esquecimento, ou como o próprio Rogério diria; “da memória”.