Oshima Nagisa: um eterno rebelde

Oshima: uma das últimas fotos estampadas em revista.

Considerado um dos líderes da Nouvelle Vague japonesa, Oshima Nagisa (大島渚 ) foi um dos mais inovadores cineastas do Japão. Faleceu em 15 de janeiro de 2013, aos 80 anos de idade, após longos anos de tratamento de um derrame cerebral em 1996, que o atingiu quando se encontrava no aeroporto de Heathrow, em Londres, e que lhe tirou a mobilidade do corpo.

Nascido em Kyoto, em 1932, perde o pai quando criança. No colégio divide o tempo entre os movimentos estudantis e o teatro. Cursa Direito da Universidade de Kyoto, engajando-se na militância estudantil. Em 1954, presta concurso na produtora Shochiku, ingressando como assistente de direção. Trabalha com diretores como Yoshitaro Nomura, Hideo Oba e Masaki Kobayashi. Com outros cineastas jovens da Shochiku, discute temas que se tornariam a bandeira da nouvella vague japonesa.

Em 1959 começa a dirigir seus próprios filmes. Seu primeiro grande sucesso foi “Contos Cruéis da Juventude” (「青春残酷物語」), 1960, que retrata o relacionamento sexual de um casal de adolescentes em meio a protestos políticos. Nesse ano casa-se com a atriz Akiko Koyama e faz uma película de forte apelo político: “Noite e Névoa do Japão” ( 「日本の夜と霧 」),  principal razão do seu desligamento da produtora Shochiku.

Em 1965 funda a sua própria produtora, a Sozosha (創造社). Começa a ser reconhecido internacionalmente como “O Garoto Toshio” (「少年」), 1969, e “A Cerimônia” (「儀式」), 1971, mas a aclamação mundial veio mesmo com “Império dos Sentidos” (「愛のコリーダ」), 1976, uma produção franco-nipônica que analisa a obsessão sexual. No Japão, o filme lhe valeu um processo por “promover a pornografia”, só encerrada em 1982, com a sua absolvição. Em 1978 ganha o prêmio de melhor direção no Festival Internacional de Cannes, com “Império da Paixão” (「愛の亡霊」). No entanto, o grande sucesso de público veio com “Furyo, em Nome da Honra” (Merry Christmas Mr Lawrence| 「戦場のメリークリスマス」), estrelado por David Bowie, Ryuichi Sakamoto e Beat Takeshi (o futuro diretor Takeshi Kitano). Para muitos críticos, seu filme seguinte “Max, Mon Amour”, estrelado por Charlotte Rampling  foi o grande equívoco de sua carreira.  Em processo de recuperação do derrame, ainda finaliza a sua derradeira produção “Taboo” (「御法度」), um filme de época com temática homossexual, que lhe rendeu o Grand Prix no Festival de Cannes.

Foto histórica de Oshima dirigindo David Bowie em "Merry Christmas, Mr. Lawrence"

Última cena de "Merry Christmas, Mr. Lawrence", com "Beat" Takeshi (Kitano Takeshi) e Tom Conti.

Nagisa Oshima e sua mulher, Akiko Koyama, estiveram no Brasil pela primeira vez em 1985, a convite da Japan Foundation. Realizaram palestra no Museu de Arte de São Paulo, onde também aconteceu uma retrospectiva de seus filmes. Ficou extremamente emocionado quando soube que “Império dos Sentidos” foi um marco no Brasil, por ter sido o filme que derrubou a  censura após o regime militar.

Atriz e esposa Koyama Akiko, discursa no funeral de Oshima.

Cenas da missa, com participação de famosos, como Ryuichi Sakamoto.

O pai de Akiko Koyama foi um capitão da companhia de emigração que levou imigrantes japoneses para o norte do Brasil, onde se assentaram especialmente em Tomé-Açu, nos anos 50. Foi o pai dela que trouxe também sementes de pimenta do reino, colhidos no antigo Ceilão, parada obrigatória da rota dos navios de então e as entregou aos imigrantes. Por pura sorte do destino, a pimenta do reino se aclimatou em terras brasileiras e o Brasil foi durante muito tempo, o maior produtor de pimenta do reino do mundo, o que alavancou a economia. Por causa disso, o pai de Akiko Koyama é considerado um herói em Tomé-Açu. Apesar de ter morrido no Japão, os imigrantes construiram a ele um túmulo em homenagem póstuma, na cidade de Tomé Açu. A televisão japonesa fez um documentário sobre este episódio, tendo Akiko Koyama como apresentadora.

Nagisa Oshima recebeu também uma delegação* de cineastas e especialistas brasileiros em cinema em 1992. Ainda bem disposto, ciceroneou a delegação para conhecer a Mostra Internacional de Cinema de Tokyo.

Outro detalhe curioso, revelado pelo próprio Oshima: quando morava em Paris, dividia o quarto com um jovem cineasta brasileiro. Com ele trocaram ideias fantásticas sobre a nouvelle vague francesa, a nouvelle vague japonesa e o cinema novo brasileiro. Oshima teria emprestado dinheiro para o jovem cineasta brasileiro, que ele nunca devolveu. Depois cada um seguiu seu caminho, mas é inegável que ambos tiveram uma expressividade fora do comum em suas áreas de atuação. O jovem brasileiro era Glauber Rocha. No Brasil, Oshima nos confidenciou que dedicou “O Império dos Sentidos” a Glauber Rocha.

 

Oshima e Glauber: uma rápida convivência em Paris pode ter rendido ótimos papos sobre os pensamentos de vanguarda no cinema.

(*) Missão de cinema do Brasil patrocinado pela Japan Foundation: Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, Sergio Martinelli, Olga Futemma, Luis Inácio Araujo, Sergio Augusto, Rubens Ewald Filho, Luis Carlos Merten, Ana Carolina, José Fioroni, Zita Carvalhosa, Amir Labaki. Acompanhou Jo Takahashi.

Trailer de Contos Cruéis da Juventude.

Sequencias de Império dos Sentidos

Trailer de Império da Paixão, com sequência inicial da premiação de Oshima, como melhor diretor, no Festival de Cannes.

Trailer de O Garoto Toshio (Shonen)

Trailer de Taboo (Gohato)

 

 

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