Um adeus a Shindo Kaneto

Shindo Kaneto, um século de vida dedicada ao cinema

SHINDO KANETO (1912-2012), um dos grandes representantes do cinema japonês acaba de falecer, por causas naturais, em sua casa em Tokyo, deixando um legado de 49 filmes dirigidos e 231 roteiros escritos para o cinema.

Seu último filme, Ichimai no Hagaki (Uma carta), foi filmado em 2010, quando o diretor estava com 98 anos de idade, e conquistou o Prêmio Especial no Festival Internacional de Cinema de Tokyo em 2011.

Shindo nasceu em Hiroshima, em 1912, numa abastada família de agricultores. O pai entretanto, torna-se fiador de um grupo de pequenos agricultores que não conseguem saldar a dívida e de um dia para o outro a Kaneto vê a tranquilidade da família desmoronar. Por volta de 14 anos, vê-se atraído pelo cinema, que começa a chegar nas cidades japonesas e passa a frequentá-los, atravessando montanhas a pé. Na volta, o lampião era a salvação para encontrar o caminho para a casa.

Decidido a trabalhar com cinema, instala-se em Kyoto, onde tem uma rápida passagem por um laboratório de revelação de filmes, onde era encarregado de secagem. A oportunidade para valer veio quando foi designado encarregado do cenário para o filme Genroku Chushingura, de Mizoguchi Kenji, em 1941. Nessa época, Shindo já escrevi roteiros e resolve submeter um para o diretor Mizoguchi. Para espanto, recebe uma crítica mordaz do mestre: “Isto não é um roteiro, é apenas uma estória”. Shindo pensou até em suicídio ouvindo estas palavras, mas encorajado por sua esposa, que falece de pneumonia posteriormente, insiste em participar de concursos de roteiro, até que no ano seguinte, sua peça Gofu (Vendaval) obtém premiação. Mizoguchi, ao saber da notícia, convida-o para um jantar de comemoração no bairro das gueixas, em Guion, Kyoto.

Curiosidade: Shindo Kaneto escreveu o roteiro para o filme Hachiko Monogatari, a famosa história do cão que espera o retorno do seu dono, um professor universitário que morre de infarto em aula. Teve um remake americano, estrelado por Richard Gere e aqui foi lançado com o título Sempre a Seu Lado. Nos créditos figura o nome de Shindo Kaneto, como autor do roteiro original.

Shindo em ação, dirigindo seu último filme, aos 98 anos de idade

Estréia na direção com Aisai Monogatari, em 1951, com seu próprio roteiro.

Cartaz de seu último filme, Ichimai no Hagaki, filmado em 2010.

Shindo escreveu 231 roteiros transformados em longas metragens e dirigiu ele próprio 49 filmes, entre eles, Genbaku no Ko (Filhos de Hiroshima) , a história comovente sobre uma professora que retorna a Hiroshima após o bombardeio atômico. O filme foi projetado no Festival de Cannes em 1953, na mesma edição em que O Cangaceiro, de Lima Barreto é premiado na categoria Melhor Filme de Aventura.

No Brasil, seu filme Hadaka no Shima (A Ilha Nua), 1960, é lançado em circuito comercial na segunda metade dos anos 60, conquistando o ranking de melhor filme nos meses consecutivos, surpreendendo até a crítica especializada. É um filme branco e preto, e sem diálogos, narrando a vida insólita de uma família numa ilha praticamente sem plantação. Revolucionário como linguagem cinematográfica, Jojoscope apresenta aqui, o filme em sua íntegra. Recomendamos reservar um momento dedicado em sua agenda para assisti-lo sem interrupções, pois o tempo e o ritmo da narrativa são fundamentais para a construção do drama.

A produção de A Ilha Nua foi de cinema independente. Todos os atores e o staff técnico acamparam no local da filmagem e todos tiveram tratamento igualitário, sem distinção de cargos ou funções. Pela sua atuação, Shindo Kaneto é considerado o pai do cinema independente no Japão.

Otowa Nobuko, em atuação marcante em Onibaba, A Mulher Diaba

Onibaba (A Mulher Diaba), 1964,  é outro filme de destaque de sua carreira, onde assim como em A Ilha Nua, atua como protagonista principal, a atriz Otowa Nobuko, sua esposa. Nobuko faleceu em 1994, com 70 anos, vítima de câncer, logo após terminar as filmagens de Gogo no Yuigonjô (O Testamento da Tarde), dirigido por Shindo.  Foi mesmo um filme testamento, tanto para o diretor, como para a atriz, que sabia dos dias que lhe restavam de vida. Um ano antes, o casal tinha construído um túmulo para eles, em Kyoto, já se preparando para o momento. Na lápide, Shindo escreveu o ideograma Ten (天)、que significa Céu. O diretor explicou: “Ten é formado por dois ideogramas: dois ( 二 ) e pessoa ( 人 ) “. Duas pessoas. É o nosso Céu. E é lá que agora eles se reencontram.

Shindo foi condecorado com a Ordem Imperial da Cultura do Japão em 2002. No seu último aniversário, que aconteceu em 22 de abril passado, Shindo discursou para os presentes, muitos cineastas e atores: “Estas são minhas últimas palavras. Muito obrigado a todos. E adeus”. Parecia estar antevendo sua morte, que aconteceria um mês após.

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 Hadaka no Shima (A Ilha Nua), 1960. Direção de Shindo Kaneto.

Duração do filme: 1h36 min. Recomendamos  insistentemente assisti-lo sem interrupção. Reservar, portanto, o tempo apropriado.

 

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