Era uma vez um Ozu

Era uma vez em Tóquio (Toukyou Monogatari 東京物語) de Ozu Yasujiro foi um grande sucesso popular no Japão, em seu lançamento, em 1953, e aclamado, várias vezes como um dos cinco melhores filme de todos os tempos, pela seleção criteriosa da The British Film Institute. Na lista de 2020, figura em terceiro lugar, depois de Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchkock e Cidadão Kane (Citizen Kane), de Orson Welles. É um filme essencialmente japonês, sem concessões a plateias do Ocidente, mas que alcançou uma aceitação universal. Ozu está na plenitude de seu estilo único, amadurecido, depurado na simplicidade e precisão. A quintessência de Ozu.

Há rigor de sobra em “Era uma vez em Tóquio”. Toda a atenção se dirige à composição dos quadros, do enquadramento, mesmo que isso sacrifique a continuidade. Por exemplo, quando o velho casal protagonista está sentado na amurada em frente ao mar em Atami, Ozu troca a posição dos personagens sem indicação de que eles se moveram, apenas para aprimorar a composição.

Encontramos também os cortes chamado “donden” , quebrando o eixo de continuidade (a direção dos olhares, a correspondência campo/contracampo). Seguindo a geometria dos motivos tradicionais de Ozu, a direção dos atores evita a dramatização. Eles parecem estáticos, quase robotizados, onde a emoção aflora através de uma interpretação extremamente contida.

Em “Era uma vez em Tóquio” a estrutura narrativa se cria através de um ciclo de vida: um momento de crescimento, decadência e separação de pares e gerações, dentro do arco das relações interpessoais. As transições estabelecem uma dinâmica dialética de ausência e presença. Daí, a trajetória dos personagens se dá numa dimensão social e até cósmica, o que articula os dois pilares de toda a obra de Ozu: o realismo do cotidiano e os valores transcendentais. A dissolução da família, para além de sua dimensão corriqueira, aponta para a transitoriedade do mundo e a desilusão da vida.

Encontramos neste filme, uma das cenas mais famosas de toda a filmografia de Ozu. Quando Noriko e Kyoko conversam sobre a atitude egoísta dos irmãos, e revelam com serenidade seu desencanto, na frase: “a vida não é decepcionante?”

Como muitos outros filmes de Ozu, “Era uma vez em Tóquio” foi contemplado com o primeiro lugar na classificação da tradicional revista Kinema Jumpo. Em sua milésima edição, em 1989, a revista publicou um ranking dos melhores filmes japoneses realizados até então. “Era uma vez em Tóquio” ficou em segundo lugar, ficando atrás de “Os Sete Samurais” de Kurosawa Akira. Entretanto, a láurea maior estava por vir. Um terceiro lugar na classificação da The British Film Institute, que em sua versão de 2012, classificou “Era uma vez em Tóquio” como o terceiro melhor filme de todos os tempos e todos os países, ficando atrás de “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchkoch e “Cidadão Kane”, de Orson Welles. A seleção contemplou um panorama de 250 filmes, escolhidos por 850 críticos de 73 países.

Todo o staff comemorando a conclusão das filmagens de “Era uma vez em Tóquio”. Onde está Ozu?

Ficha Técnica

Produção: Shochiku (Estúdio Ofuna)

Direção: Ozu Yasujiro

Roteiro: Noda Kogo | Ozu Yasujiro

Fotografia: Atsuta Yuharu

Montagem: Hamamura Yoshiyasu

Direção de arte: Hamada Tatsuo

Música: Saito Takanobu

Elenco: Ryu Chishu | Higashiyama Chieko | Hara Setsuko | Sugimura Haruko | Nakamura Nobuo | Yamamura So | Miyake Kuniko | Kagawa Kyoko | Tono Eijiro | Osaka Shiro | Murase Zen | Mori Mitsuhiro

Ano de produção : 1953

Duração: 135 min preto & branco

Sinopse: O casal de idosos Shukichi e Tomi Hirayama mora em uma pequeno vilarejo beirando o mar interior, no sul do Japão, e decidem visitar seus filhos, já adultos, que moram em Tóquio. Ao chegarem, notam que os filhos estão muito ocupados com suas rotinas diárias para prestar atenção nos pais, tratando a companhia como obrigação, até que são acolhidos por Noriko, nora do casal, cujo marido faleceu durante a Segunda Guerra.

Assista ao filme em versão integral e restaurada, até o dia 9 de julho de 2020. Cortesia da Fundação Clóvis Salgado | Palácio das Artes. 

 

 

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