Após cumprir itinerância pelo Rio de Janeiro e Brasília, ambas no Centro Cultural Banco do Brasil das respectivas cidades, chega a São Paulo a exposição Sublime Obsessão, uma grandiosa retrospectiva da obra de Kusama Yayoi, a mais consagrada artista contemporânea do Japão.
A inauguração oficial será no dia 21 de Maio, para convidados. Mas haverá um vernissage fechado para 100 convidados para uma visita guiada pela curadoria, seguido de jantar.
Sobre a presença da própria artista, ainda é um mistério. Mas há chances de ela aparecer. Afinal é o último ponto da itinerância desta grandiosa exposição na América do Sul. Depende exclusivamente da liberação da clínica psiquiátrica onde a artista é internada com frequência, por causa de suas alucinações, que a fazem perder o controle da razão.
Por enquanto, as autoridades confirmadas na inauguração são David Zwirner, que vem de Londres e Victoria Miro, de Paris, e a equipe da Ota Fine Arts, de Tokyo.
A “Rainha das Bolinhas”, como é conhecida no Japão, acabou de completar 85 anos em março passado.
O mundo todo vibra com Kusama World
Não há um dia no Japão em que não se ouve falar em Kusama Yayoi. Uma gigantesca retrospectiva na Tate Modern (Londres, 9 de Fevereiro a 5 de Junho) brindou o ocidente com uma rica perspectiva histórica de suas criações. Dentro do Japão, a exposição com obras recentes atraiu já mais de 100 mil pessoas. Hoje, Kusama é certamente uma das maiores artistas do mundo. Sua trajetória artística de mais de meio século, seu mundo de bolinhas, conhecido como Kusama World, já é uma referência mundial.
Na Tate Modern
Um feito que nenhum outro artista japonês conseguiu até agora: uma retrospectiva completa percorrendo quatro cidades na Europa e Estados Unidos (Centro de Artes Sifia, Madrid | Centro Pompidou, Paris | Tate Modern, Londres | Whitney Museum, Nova York), que começa com suas obras dos anos 1950 e 1960 em Nova York até os dias atuais, reunindo cerca de 100 obras representativas, consolidando o nome KUSAMA na história da arte contemporânea.
Veja aqui video-reportagem da noite de abertura da exposição.
Depoimento de Frances Morris, curadora da exposição.
Frances Morris foi a responsável pela seleção das obras que compõe a retrospectiva itinerante. Chefe de Coleção e responsável pelo departamento de arte internacional da Tate Modern.

“Sua atividade artística em Nova York nos anos 50 e 60 tem um valor inestimável para as artes. Diferente de artistas como Polocke e Rosko, que mantiveram um estilo imutável durante toda a sua trajetória, Kusama é rica em mutações. É interessante, através desta retrospectiva, entender as mudanças na história da arte, vistas sob o prisma dela”.
“Kusama teve um início intenso nas artes em Nova York, mas resolveu retornar ao Japão, sem ter uma galeria representativa no Ocidente. Isso tardou sua visibilidade internacional, que só ocorreu em 1993, quando expôs no Pavilhão japonês na Bienal de Veneza. Esse gap é muito parecido com o de Louise Bourgeoise. Ela só conseguiu uma boa retrospectiva nos anos 80, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Então, ela já estava com mais de 70 anos”.
“Kusama foi uma player decisiva nas artes ocidentais, primeiro ocupando espaço nos anos tardios do abstracionismo americano e depois na pop-art. Ela é também pioneira em instalações e também como vanguardista em arte performática dos anos 60”.
“Kusama sempre foi única. Bacon, Giacometti, Bourgeoise, Kusama, O’Keefe, Kahlo, todos eles são artistas que não precisaram de moldura. Como artistas independentes, mantiveram-se sempre afastados de movimentos, não se diluindo em ismos e estilos. Por exemplo, Kusama foi uma existência fundamental para a pop-art, mas ninguém a classificaria como artista da pop-art. Ela foi sempre insider e outsider ao mesmo tempo”.
“O maior valor em Kusama, é que seu trabalho não tem fim. Em cada etapa de sua arte, ela deflagra milhões de descobertas. Uma busca incessante pelo novo. Esta é a característica maior de sua obra”.
Novas colaborações à vista. A próxima será com Louis Vuiton. Por enquanto, uma exposição na Maison Louis Vuiton, na New Bond Street. Estão expostas esculturas e pinturas, além de livros sobre Kusama. A colaboração se inicia neste verão europeu.

Veja aqui, documentário sobre Kusama na Tate Modern, com depoimento da curadora Frances Morris.
Ação educativa na Tate: um estudo de referências de Kusama
As grandes fases de Kusama Yayoi

1929-1956: Fase pré-americana. Atividade em Matsumoto
Kusama Yayoi nasce caçula de uma família tradicional de agricultores em Matsumoto, em 1929. Desde sua infância é acometida por vertigens e Genkaku Gentyo. Ela lembra que via padrões florais do pano de mesa em toda a extensão das paredes do quarto. Para afugentar essas visões, começa a desenhar. Aprende pintura japonesa (nihon-ga) de um pintor da região, e pegava tinta dos carpinteiros, montava seus quadros com esquadrias de janela e tecidos para produzir suas telas. Ainda na infância essas telas chegavam, empilhadas, até o teto de seu quarto. O retrato que pintou de sua mãe, a lápis, já mostra uma profusão de bolinhas, que seria a sua característica principal de sua obra. Contrariando a vontade dos pais, Yayoi parte para Kyoto para estudar em escola de belas artes. Aos 23 anos realiza sua primeira individual. Por conta própria, escreve uma carta para Georgia O’Keefe, envia-lhe uma gravura que ela fez e parte para os Estados Unidos.
1957-1965 Nova York, primeira fase
Yayoi chega aos Estados Unidos em 18 de Novembro de 1957. Fez uma pequena individual em Seatle e logo parte para Nova York. O quarto, alugado por 20 dólares não tinha chuveiro e pequeno demais para as dimensões de suas telas. Sobrevivia com sopa feita com cabeça de peixe descartada pelo peixeiro e repolhos de fim de feira. A série que iniciou nesta fase se chama “Mugen no Ami – A rede infinita”. A individual em Nova York se concretizou somente dois anos após (Galeria Plata, 1959). Eram cinco telas, do mesmo tamanho das paredes da galeria. Lá, infinitas redes ocupam todas as superfícies. O monocromismo de suas telas causou impacto no abstracionismo em voga em Nova York. O crítico Donald Jaddo foi um grande entusiasta das obras de Yayoi Kusama, e chegou a adquirir um dos quadros. Seguiram-se instalações revolucionárias, como 集積, invólucros em forma de pênis fixados em mobiliários, e expostos na Galeria Richard Castellani em 1964. Em suas exposições compareciam artistas como Andy Warhol e Lichtenstein.

1966-1972 Da Performance Art para a Moda
Em 1966, Yayoi participa da 33ª. Bienal de Veneza, montando uma instalação intitulada “O Jardim de Narciso” no gramado do Pavilhão da Itália. Eram 1500 bolas espelhadas. Yayoi se vestiu com um kimono dourado e ironizando os marchands de arte, quis vender cada bola por 2 dólares. Sua iniciativa foi vetada pela organização. Foi a época áurea de suas performances, que aconteciam na Estátua da Liberdade, no edifício da ONU, na ponte do Brooklin: um casal nu era pintado com bolinhas por Yayoi Kusama. Tinha uma velada crítica à guerra do Vietnam e a imprensa deu destaque a estas ações.
Ao retornar ao Japão, a mídia a tachou como “A Deusa do Happening”, e o público espera dela performances escalandosas envolvendo nudez. Yayoi era exímia na arte de dominar a mídia. Passou a publicar um tablóide, contendo informativos sobre suas performances. Chamava-se “Kusama Orgy”, onde Orgy significava Organization, Real, Groovy, Young people.
Em 1968 cria o “Yayoi Enterprise”, criando uma marca de moda feito à mão, passando a atuar na criação de figurinos para filmes e musicais.
- “O Jardim de Narciso” na Bienal de Veneza, hoje incorpora o acervo do Instituto Inhotim, em Minas Gerais. 500 esferas de aço inoxidável flutuam sobre o espelho d’água criando formas que se diluem ou se condensam de acordo com o vento e outros fatores externos. Evocando o mito de Narciso, que se encanta pela própria imagem projetada na superfície da água, a obra constrói um enorme espelho, composto por centenas de espelhos convexos, que distorcem, fragmentam e, sobretudo, multiplicam a imagem daqueles que a contemplam. Em sua releitura do mito, Kusama o desconstrói na medida em que proporciona uma experiência de dispersão da imagem, que ali é refratada ad infinitum, ao contrário da ilusão de unidade e completude vivenciada por Narciso.
1973-1988 Das Artes para a Literatura

Ao retornar ao Japão em 1973, Yayoi passa a experimentar novas técnicas e materiais. Cerâmica, litogravura, pintura em spray, e especialmente, colagem. Mas passa a dedicar-se também à literatura. Durante o dia produzia pinturas e esculturas. À noite, escrevia. Essa passou a ser a rotina diária.
As colagens eram feitas em homenagem a duas pessoas que marcaram sua vida. Uma delas era seu grande amigo falecido, Joseph Cornell. O outro era seu pai, que veio a falecer logo após o seu retorno ao Japão.
Com escritora, lançou seu primeiro romance em 1978 (Manhattan Jisatsu Misui Joshuhan), seguindo-se uma média de um romance publicado a cada dois anos. Com “Christopher Danshokutsu“ recebe o prêmio de Jovens Autores, recebendo elogios de escritores como Miyamoto Teru, Nakagami Kenji e Murakami Ryu.
Já na década de 80 passa a ser frequentemente convidada para grandes exposições. Em 1981, participa da exposição “Anos 60 – A era da transformação na arte contemporânea”, no Museu Nacional de Arte Moderna de Tokyo e em 1983, da exposição “Tendências da Arte Contemporânea II 1960 A partida para a multiplicidade”, no Museu Metropolitano de Tokyo. Kusama cravava assim, sua presença nas artes dos anos 60. Uma grande individual foi realizada no Museu de Arte de Kitakyushu. Na época, era rara ainda uma individual de um artista em museus públicos.
Começava assim o tardo reconhecimento dentro do Japão de uma artista consagrada internacionalmente. De deusa dos happenings, Kusama passou a ser valorizada como grande artista dentro do Japão no final da década de 80.
1989-1999 Bienal de Veneza e a revalorização internacional
15 anos após sua primeira despedida de Nova York, ela obtém a oportunidade de retornar, em grande estilo, com uma retrospectiva promovida pelo Centro Internacional de Arte Contemporânea (CICA), organizada por Alexandra Monroe, como evento de inauguração do Centro. Foi uma ótima oportunidade para uma releitura atenta de sua obra, a partir dos anos 50, com a inclusão de um depoimento de Georgia O’Keef no catálogo.
Monroe procurou mostrar a arte de Kusama, não sob o prisma de suas barreiras psiquiátricas, mas focando na condição da mulher e artista, dentro de uma sociedade feudal como é o Japão.
Os anos 80 floresciam com os movimentos feministas, e uma instalação como a de Kusama, com uma multiplicidade de pênis instalados em mobiliário representava a libertação de uma sociedade controladora e dominante.
Em 1993, finalmente chega o grande reconhecimento como artista japonesa. Representar o país na 45ª. Bienal de Veneza. O comissário foi Akira Tatehata, grande crítico de arte, ele próprio poeta e conhecedor da poesia concreta brasileira. Sua obra foi composta por uma escultura, em forma de barco recheado de pênis de pano, e uma sala espelhada com superfície de bolhinhas, criando uma sensação labiríntica no espaço.
Seguiram-se exposições na County Museum, de Los Angeles (1998), no Museu de Arte Moderna de Nova York e no Museu de Arte Contemporânea de Tokyo. Era a retrospectiva “Love Forever: Kusama Yayoi 1958-1968”, com curadoria de Lynn Zelevansky, hoje diretora do Museu de Arte de Carnegie. O foco era a década passada por Kusama nos Estados Unidos. “Para além da bandeira feminista, a obra de Kusama transita entre o abstracionismo e o minimalista, transformando-se em uma lúdica ponte das artes”, definia a crítica.
2000 – tempos atuais
“Quantas vezes clamei “Love Forever!”. Sentir a pressão do tempo é um atributo dos homens. Na conclusão do decorrer do tempo desejo a paz, acima de tudo, e e não posso deixar de clamar mais uma vez por um amor inifinito”.
Os anos 2000 foram para Kusama o início de seu desafio para a arte pública e as esculturas externas.
No Japão, participou da Trienal de Yokohama e a Trienal de Echigo Tsumari. No exterior, sua presença na Asia Pacific Trienale e a Bienal de Liverpool merecem destaque. Em todos estava lá com suas dots (bolinhas) em gigantescas instalações.

Em 2004, a Mori Museum, sob direção de Nanjo Fumio, promoveu a exposição “Kusamatrix”, onde apresentou uma instalação de temática infantil e alegre, com bonecas e cachorros, claro, todos com bolinhas.
Ao mesmo tempo, o Museu de Arte Moderna de Tokyo inaugurou a exposição itinerante “Kusama Yayoi – o presente eterno”, com grande êxito de público e crítica.
Inicia seus trabalhos em arte pública com a instalação de um grande objeto na praça do Museu de Arte de Matsumoto (Uma Miragem em Flor). Também em Naoshima, Fukuoka e Towada suas obras tridimensionais de grandes proporções começam a ser montadas. E há, no caso do Museu de Arte de Kumamoto, uma obra comissionada, uma sala de espelho, e o nome Kusama passou a definir um status para qualquer museu no Japão.
Em 2006, Kusama invade as ruas e adjascências do local onde foi realizada a Bienal de Singapura, com bolinhas e balões. O mesmo caráter festivo aconteceu na Trienal de Aichi, quando até um desfile de carros pintados com bolinhas tomou conta da cidade. Kusama se tornou presença obrigatória em todas as exposições de arte internacional. Kusama é hoje considerada a deusa das artes e investe todo o seu tempo, mesmo hoje, na produção de novas artes.

Kusama x Louis Vuitton
O namoro entre a marca Vuitton com a obra de Kusama já vinha acontecendo desde 2010. Marc Jacobs, o comandante artístico da Louis Vuitton tratou de deflagrar este encontro que muitos estão chamando de parceria. “Infinitely Kusama” é o nome desta partnership e inclui toda uma linha de roupas, sapatos, acessórios e complementos, além de bolsas que são inundadas com as polka dots by Kusama. Marc Jacobs, em visita a Tokyo, foi confirmar a “energia infindável” da Rainha das Bolinhas. Kusama havia pintado alguns protótipos manualmente para mostrar a Jacobs, entre eles uma bolsa Louis Vuitton. É a arte encontrado o design e passeando pela cidade.
Dia 10 de Julho, semana que vem, chegam às lojas temporárias da marca em Nova York os primeiros produtos. Coincidentemente, de 12 de julho a 30 de setembro, chega a exposição itinerante de Kusama, no Whitney Museum. É um período longo de exposição e tem tudo para despencar por aqui também, no ano que vem. Jojoscope já está trabalhando no back stage, na operação polka dots in Brazil.
Mas os produtos da parceria Louis Vuitton por enquanto só pra quem viajar para Nova York, ou então em Tokyo (com duas lojas), Hong Kong, Paris, Cingapura e Londres, onde promete bombar durante as olimpíadas.

Depoimento de Marc Jacobs sobre Kusama.
Trailler do Aplicativo para iPhone da parceria Louis Vuitton x Yayoi Kusama
Trailler do documentário dirigido por Heather Lenz, ainda em produção.
E até aqui no Brasil já chegam as brisas de Kusama Yayoi. Vejam a capa da Vogue deste mês, com Gisele Bünchen vestindo Kusama Yayoi !
A mostra Obsessão Infinita fez itinerância pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro de 12 de outubro até janeiro de 2014. Depois seguiu para o CCBB de Brasília onde permaneceu em cartaz até o dia 28 de abril e inaugura em São Paulo no no dia 21 de maio no Instituto Tomie Ohtake, onde fica até 27 de julho. Ao todo mais de cem obras da artista criadas desde 1950 estarão expostas.











