O sushi melhor custo benefício

Sim. Comer um bom e correto sushi é uma aventura com resultados imprevisíveis. É quase um investimento de risco. Por isso, acabou se tornando um ritual, reservado a ocasiões especiais. Muitas casas investem no conceito da sofisticação acreditando que o consumidor de sushi é um público de alto poder aquisitivo.

Gravura de Ando Hiroshige, realizada supostamente entre 1841 e 1842. 東都名所高輪廿六夜待遊興之図(Touto Meisho Takanawa Nijurokuya-machi Yuukyou no zu)retrata um festival de contemplação da lua, no alto verão. Nela é possível ver vários “yatai”, barracas de comida de rua, como o de dango (bolinhos doces de feijão azuki), tempurá (frituras) e o de sushi, à direita.
barracas de sushi da era Edo.

Muitos, porém,  se esquecem, ou não sabem, que o sushi foi, em sua origem, um fast food e era vendido como comida de rua. Na era Edo (1603 a 1868) aperfeiçoou-se o tempero do arroz avinagrado, e as primeiras carroças começaram a circular pela antiga Tokyo vendendo niguiri-zushi. O arroz avinagrado e o peixe marinado eram técnicas de conservação dos alimentos, em tempos em que a refrigeração ainda não existia. Tokyo sempre foi privilegiada por uma profusão de bons pescados que chegam todos os dias à sua baía através de navios pesqueiros, juntamente com algas dos mares do norte. Era comum também peixeiros começarem a preparar niguiri-zushi, com sua matéria prima. Este ofício foi quase uma decorrência e extensão de sua atividade. Aconteceu com o pai do chef Shin Koike, do Sakagura A1, que era peixeiro e virou sushiman.

Sashimi vigoroso, cobrado por peso a preços muito honestos.

Então, voltando às origens, aos moldes da era Edo, só que em São Paulo, há uma casa que tem exatamente esta história: de peixaria para casa de sushi. É o Uokatsu  (魚活 ), que fica em frente ao Ginásio do Ibirapuera, e a poucos metros do parque. Uo significa peixe, katsu significa fresco, vigoroso. Nome propício para uma peixaria. Talvez nem tanto para um sushi bar. E claro, absolutamente sem o charme das casas de sushi estrelados.

Os donos continuam os mesmos, desde o tempo da peixaria. Portanto, a qualidade e o frescor do pescado está absolutamente garantido, pois eles entendem do assunto. As mesas são comunitárias e há um pequeno balcão, onde se podem ver os poucos sushimen em ação. Uma parte dos makimono já estão previamente prontos, o que agiliza o serviço. Há muitos diferenciais que você não encontra em outras casas. Por exemplo, o sashimi é vendido por grama, a preços muito justos. E sempre fresquíssimos. Há ostras vivas, do dia, a R$ 3,00 a unidade. Preço de praia!

Combinado Uokatsu, com 5 fatias de sashimi de atum e 5 de salmão, oshizushi (sushi prensado) com shari de ovas de capelim e no topping, um suflê de salmão., gergelim e cebolinha. R$ 39,60

Apesar de oferecerem os niguiris tradicionais, nossa atenção focou nos criativos makimonos, vendidos a unidade (R$ 2,80 em média) nos dias de semana. Os enrolados de folha de mostarda remetem à memória dos imigrantes, que usaram a criatividade para substituir a folha de alga nori por esta verdura, que tem um sabor bastante parecido. O makimono de acelga merece uma visita também, especialmente neste verão atípico. Mas o mais criativo dos makimonos é sem dúvida, o de alga kombu. O kombu fresco, em tiras, substitui o nori e oferece um umami extra no makimono, que vem com um maravilhoso suflê de atum. Outra pedida interessante é o massago maki, um makimono com ovas de capelim por fora e o mesmo suflê de atum por dentro. O shari (arroz de sushi) peca pelo excesso de vinagre, mas isto até contribui para sentir mais frescor. O pecado maior, contudo, está por conta do shoyu oferecido nas mesas, nacional e inapropriado para se degustar um bom sashimi. O shoyu nacional é forte, encorpado, excessivamente salgado, sem fermentação adequada, e mascara o sabor natural dos insumos. Para uma experiência perfeita, leve um sachê de shoyu importado para saborear o frescor das fatias de sashimi em toda a sua plenitude.

Kombu maki (esquerda), acelga maki (direita) e kyuri maki (enrolado com pepino), no alto. Cada, em média R$ 2,90 Fotos: Jo Takahashi

Há também peixes grelhados, vendidos por peso. A meca temperada e curtida no missô será a nossa próxima pedida.

Ah, e não se assuste com os copinhos de plástico. Faz parte do clima de praia. Vá sem frescuras.

A conta é paga diretamente no caixa e o serviço é opcional. Quando o cliente aceita incluir o serviço, o caixa grita um “caixinha!” com o vigor de um peixeiro, e toda a brigada agradece. É quase um ritual.

Lota na hora do almoço. Tem até uma maquininha para tirar senha, tipo repartição pública. E nem tem lugar para esperar. Para evitar este desconforto, a dica é almoçar mais cedo (às 11h30), ou mais tarde (a partir das 14h30). Abre às 10h da manhã e vai até as 18h nos dias de semana (fecha segunda) e no sábado, até as 16h.

 

Uokatsu sushibar

Rua Manoel da Nóbrega, 1180  Ibirapuera, São Paulo (11) 3051 5855. Veja mapinha aqui.

Não aceita cartões de crédito.

 

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