A Arte dos Quimonos: um tesouro escondido

Clique nas imagens para ampliar Crédito para as fotos do acervo da exposição: Helio Tenguan Nobre

 

Com a sempre sofisticada curadoria de Denise Matar, São Paulo recebe uma exposição de um verdadeiro tesouro: os quimonos japoneses, símbolo de requinte e nobreza de vestir. A curadoria já começa acertando na ambientação. Nada mais adequado do que o ambiente suntuoso do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, para adequar esta mostra, que promete ser uma das experiências mais fascinantes para aqueles que desejam uma imersão nas tradições palacianas do Japão.

Os quimonos são verdadeiras obras de arte. Vesti-los é como carregar no corpo, um mundo de imagens de complexas tramas e padronagens, ora expressando o repertório cromático da estação do ano, ora desenhos que brotam do imaginário e das lendas. Um símbolo da milenar tradição japonesa que tem inspirado, ao longo dos séculos, pintores, poetas e escritores.

 

Releitura de Quimono, por Paul Poiret (1913)

Seu design inteligente revolucionou a moda ocidental. Paul Poiret, nos anos 1920, aboliu o uso do espartilho com a criação de roupas influenciadas pelos quimonos.

O quimono é um ícone fashion com constantes releituras de estilistas ocidentais como Pierre Cardin, Saint Laurent, John Galiano, e até mesmo japoneses como Hanae Mori, Rei Kawakubo, Yoji Yamamoto, Issey Miyake, Kansai Yamamoto, Kenzo. Os designers Makiko Sekiguchi e Hiroyuki Horihata, da marca Matohu fazem inserções de peças originalmente produzidas para quimonos, em suas criações contemporâneas.

Quimonos estilizados vestiram celebridades do mundo pop como Madonna, Lady Gaga, Amy Winehouse, entre outras. É notável a criação do estilista Alexander McQueen, para a cantora Björk, estampada na capa do CD Homogenic.

A tradição e estética do quimono estão hoje, mais vivas do que nunca, em recriações deslumbrantes.

Criação de Alexander Mcqueen para Bjork

A Arte do Quimono: a exposição 

A mostra é constituída por parte de uma rara coleção de 400 quimonos luxuosos do acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa do Brasil (MHIJB). A exposição “A Arte dos Quimonos e as Gravuras Japonesas do Acervo Artístico dos Palácios” marca os 105 anos da imigração japonesa no Brasil, comemorada em 18 de junho, quando o navio Kasato Maru desembarcou  a primeira leva de imigrantes no Porto de Santos, e os 35 anos da fundação do MHIJB.

Tecido Adamascado O rinzu (cetim de seda adamascado) é um tecido de grande brilho cujas texturas e padrões monocromáticos são resultantes do processo de tecelagem. É considerado um artigo têxtil de alta classe. Foi introduzido no Japão pela China no século XVI. A partir do século XVII passou a ser produzido no Japão e gradualmente substituiu as sedas mais duras usadas anteriormente.
Quimono-adamascado Furisode em seda rinzu tingida e bordada com aplicação de folhas de ouro (kinsai kako) Motivos: crisântemos, flores de ameixa, camélias, íris e folhas de bordo180 (altura) x 130 (largura) x 107 (manga) cm

Ao lado das 30 peças de quimono estarão expostas uma série de 30 ukiyo-e, gravuras produzidas no Japão, no século XIX, que fazem parte da coleção do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo.

Shibori é uma técnica de tingimento por imersão na qual algumas áreas são bloqueadas para não serem tingidas. Esse bloqueio pode ser feito de diversas maneiras, ora amarrando ou costurando pequenas áreas do tecido, ora usando pasta de amido. Existem muitas variedades das quais a mais representativa é o padrão kanoko shibori no qual isola-se uma área mínima do tecido por amarração; os pontinhos brancos resultantes se assemelham ao desenho das costas do veado, daí o nome da técnica. É extremamente trabalhosa, mas resulta numa combinação de profundidade e esplendor. Furisode em seda tingida (shibori) e bordada com aplicação de folhas de ouro (kinsai kako) Motivos: leques, tesouros e montanhas 175 (altura) x 132 (largura) x 109 (manga) cm

A mostra também marca o lançamento da campanha de arrecadação de recursos para a construção de uma reserva técnica, espaço adequado para armazenar os quimonos a ser construído na sede do MHIJB, na Liberdade. As peças estão armazenadas de forma inapropriada no Museu, o que pode comprometer a conservação. “Quando o Museu da Imigração Japonesa nos apresentou o projeto resolvemos acolher a exposição que tem um caráter comemorativo e, ao mesmo tempo, social”, afirma Ana Cristina Carvalho, curadora do Acervo Artístico Cultural dos Palácios, responsável pela montagem da exposição.

Quimono de casamento Uchikake (longo manto) é um manto ricamente colorido e bordado. No período Edo era usado em ocasiões especiais pelas mulheres dos samurais ou de famílias nobres. Hoje é uma parte do traje de noiva tradicional japonês. Por arrastar no chão o uchikake tem a barra almofadada e os padrões e temas nele utilizados simbolizam prosperidade e fertilidade. Utiliza-se também o nome Irouchikake que significa colorido longo manto.

“Os quimonos revelam a beleza da tradição japonesa”, afirma a curadora convidada Denise Mattar, responsável pela seleção das 30 vestimentas, das quais 24 são exibidas em vitrines e seis em manequins. Um dos mais notáveis é um quimono de 12 camadas, o Juni Hitoe (十二単 ) , uma reprodução da vestimenta que costumava ser usada nas cortes japonesas na era Heian (795-1185). “Cada quimono tem uma estampa única e esplendorosa, é uma peça exclusiva e artesanal”.

Quimono de casamento Irouchikake bordado com aplicação de folhas de ouro (kinsai kako) Motivos: fitas, crisântemos, tesouros, patos e peônias 185 (altura) x 130 (largura) x 106 (manga) cm

Há trajes específicos apenas para casamentos, que promete ser outra atração da mostra. “Os quimonos tem um valor espiritual para os imigrantes japoneses”, afirma Lidia Yamashita, vice-presidente do Museu Histórico da Imigração Japonesa do Brasil. “Os quimonos de casamentos, por exemplo, foram doados por japoneses que sonhavam que as filhas fossem se casar com trajes típicos”.

Quimono de casamento: Irouchikake 'bordado Motivos: carruagens, crisântemos, pinheiros e flores 184 (altura) x 132 (largura) x 105 (manga) cm

 

Quimonos pintados: os tecidos dos quimonos passam por um processo de tingimento e pintura e geralmente são também bordados. Em alguns há uma predominância de algumas técnicas. Byôga (arte da pintura), sokaki (pintura simplesmente) é a técnica baseada em se desenhar diretamente o padrão no tecido. É extremamente pictórica e há ocasiões em que é executada por pintores de alta reputação. O furisode é o quimono de mangas longas usado pelas mulheres solteiras Furisode em seda tingida e bordada com aplicação de folha s de ouro (kinsai kako) Motivos: leques, água corrente, crisântemos e peônias 172 (altura) x 132 (largura) x 107 (manga) cm
Furisode em seda tingida e bordada com aplicação de folhas de ouro (kinsai kako) Motivos: leques, água corrente, crisântemos e peônias 172 (altura) x 132 (largura) x 107 (manga) cm

Gravuras 

A coleção de 30 gravuras produzidas no Japão, no século XIX, pertencente ao Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo também integra a mostra. Denominadas ukiyo-e, as gravuras refletem a estética do mundo flutuante associada à prosperidade da cultura urbana nipônica no período Edo (1600-1867), envolvendo o processo de impressão sobre papel de palha de arroz em xilogravura. A temática aborda o teatro kabuki, os guerreiros e as mulheres de entretenimento, também conhecidas como figuras bonitas. O quimono é retratado constantemente, revelando o requinte das técnicas de tessitura, tingimento e tecelagem e o significado que desempenha perante as relações sociais. Segundo a curadora do Acervo-Artístico, Ana Cristina Carvalho, “a imagem dos quimonos é, portanto, a ponte que integra as duas coleções”.

SERVIÇO

Exposição A Arte dos Quimonos 
Palácio dos Bandeirantes  Avenida Morumbi, 4500  Morumbi – São Paulo/SP 

Data: de 29 de maio a 28 de julho

Horário de visita: de terça a domingo, das 10h às 17h (de hora em hora)

Informações (11)2193-8282 monitoria@sp.gov.br GRÁTIS

 

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