Tokiori – Dobras do Tempo dá início ao projeto Travessias em Conflito

Projeto Travessias em Conflito- o lado B da imigração japonesa no Brasil começa a programação exibindo o filme TOKIORI – DOBRAS DO TEMPO, do jovem diretor Paulo Pastorelo.

Veja programação do projeto aqui.

É no presente que nós elaboramos uma narrativa. É no presente que sonhamos, lembramos e projetamos. Se o presente pode ser imaginado como um tecido infinito, uma narrativa pode ser vista como uma dobra. Esse tecido infinito do presente, dobrado à cada narrativa, representa o Tempo. Um filme, enquanto momento de elaboração de uma narrativa, pode ser expresso como um exercício de dobrar o Tempo. Tokiori, do japonês toki (時 Tempo) e ori (折 do verbo oru dobrar), é um documentário longa-metragem para exibição em circuito comercial de cinema cuja escritura fílmica se organiza em torno das memórias de seis famílias de imigrantes japoneses que se instalaram no bairro rural da Graminha, oeste do estado de São Paulo. Ele se aproveita da recente passagem do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil em 2008 para abordar os entrelaçamentos entre história e memória, exercício central do filme. A partir de um trabalho profundo sobre a memória, Tokiori propõe (re)escrever uma outra história.

 

Tokiori é o segundo longa-metragem de Paulo Pastorelo, que já dirigiu em parceria com João Sodré e Maíra Santi Bühler o premiado documentário Elevado 3.5(75’), prêmios do júri de melhor filme “CPFL Energia – Janela para o contemporâneo”, no valor de 100 mil reais, e “Révélation Ambassade de France” na 12a edição do Festival É Tudo Verdade, em 2007, maior e mais respeitado festival de cinema documentário da América Latina. Ele será produzido pela Primo Filmes (Brasil) em co-produção com a Comme des Cinémas (França) e terá locações no Brasil e no Japão. Aprovado pela Lei do Audiovisual (SALIC 080211), o início das filmagens está programado para julho de 2010. O lançamento será em abril de 2011.

A maior onda da imigração japonesa no Brasil ocorreu entre 1927 e 1934. Foi no bairro rural da Graminha, no oeste paulista, que o destino de seis famílias de imigrantes desse período se cruzaram. Arrancada da mata virgem pelos imigrantes japoneses, italianos, espanhóis, que, por sua vez, empregavam paulistas, mineiros e nordestinos em suas terras, a Graminha é um lugar de encontros e desencontros de pessoas, culturas e tempos. Seguindo o cotidiano de quatro gerações dessas famílias, no Brasil e no Japão, “Tokiori”, em japonês Toki > tempo e Ori (de Oru) > dobrar, busca tornar visível suas identidades híbridas construídas ao longo do tempo. Terra natal e terra estrangeira se confundem nessa história marcada por constantes idas e vindas entre os dois países.

TOKIORI DOBRAS DO TEMPO (2011, 106′)

  • Direção: Paulo Pastorelo
  • Produção: Joana Mariani e Matias Mariani Primo Filmes
  • Produção Associada: Masa Sawada e Yudi Sadai
  • Produção Executiva: Luis Dreyfuss
  • Direção de Fotografia: Alexandre Samori
  • Montagem: Paulo Pastorelo e Noriko Oda
  • Música Original: Ivan Vilela
  • Edição de Som: Cláudio Avino e Carlos Paes
  • Correção de Cor: Marcio Pasqualino
  • Som Direto: Juliano Zoppi

Uma crônica do exílio à margem da História ou…

Distante 500km à oeste da cidade de São Paulo, o bairro rural da Graminha agrupa pequenos sítios de famílias de origem japonesa, cercados por fazendas de criação de gado. Yoshie SATO chegou a Graminha em 1936, acompanhada dos seus pais, quatro irmãs e o irmão mais velho. Sua família teve papel central em uma série de casamentos que uniram, em laços de parentesco, as principais famílias japonesas co-fundadoras do bairro: os YANAI, os YOSHIMI, os FUNO, os OKUBO e os SUGITA.

Aos 89 anos, Yoshie é viúva e vive no sítio do seu marido, Shigeru YANAI, rodeada de sua família. Quatro gerações reunidas sob o mesmo teto. Seu filho Isamu, dirige o sítio com a ajuda do seu filho mais velho, Alexandre Tamotsu, que acabou de retornar do Japão após quase 20 anos como dekassegui (trabalhador emigrante). Ele retornou ao Brasil acompanhado de dois de seus filhos, deixando para trás a esposa e outros dois filhos, todos nascidos no Japão. A fortuna de Alexandre não é um caso isolado na Graminha: ela se inscreve no movimento de êxodo massivo que o bairro conheceu na virada dos anos 1990 quando uma grande parte da segunda e terceira geração deixou o Brasil para trabalhar no Japão.

Porém, a recente crise econômica deflagrada nos EUA em 2008, inverteu esse movimento obrigando Alexandre e outros milhares de expatriados brasileiros de origem japonesa a retornarem ao Brasil. A história parece se repetir geração após geração para esses nipo-brasileiros, condenando-os a um perpétuo movimento migratório entre os dois países.

…por uma narrativa da memória

Para tentar se aproximar dessa experiência de travessia, Tokiori irá se articular em torno de cinco viagens entre o Japão e o Brasil, realizadas em diferentes períodos entre 1927 e 2009, com base nos testemunhos dos personagens, bem como sobre um extenso arquivo familiar e histórico. Esses períodos foram determinados por mudanças de ordem política e econômica nos dois países e repercutiram diretamente sobre suas vidas, emaranhando cada vez mais suas referências de identidade.

Mergulhando na intimidade dessas pessoas simples, esquecidas pela História, percebemos melhor as implicações dessa constante travessia entre os países, suas culturas e dois modos de vida em si próprios já múltiplos. Assim, Tokiori – Dobras do Tempo procurar trazer para o primeiro plano a experiência dessas trajetórias de vida, seus pontos de ancoragem e pertencimento. Uma crônica do exílio à margem da História e dos discursos oficiais, que no entanto servirão de contraponto para a construção narrativa do filme através do diálogo entre a memória coletiva dessas famílias e os textos da História “oficial” da imigração japonesa no Brasil.

 

Paulo Dominguez Pastorelo é arquiteto e urbanista formado pela FAU/USP e mestre em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Sorbonne Nouvelle Paris 3. Foi diretor, fotógrafo e pesquisador do documentário “Vale o homem seus pertences” (52’), realizado em co-produção com a STV – Rede SescSenac de Televisão em 2005. Esse vídeo foi um desdobramento de sua pesquisa de Iniciação Científica como bolsista da FAPESP, entre 2000-2002, intitulada “A cultura material do Vale do Jequitinhonha: um estudo de projeto espontâneo de produto”.

Dirigiu e produziu, em parceria com João Sodré, o vídeo educativo “Desenhos do Mundo e Descobrimentos Imaginados” (14’) para exposição de cartografias de São Paulo no Museu Paulista (jan. 2005). Em 2006 foi pesquisador e diretor, em parceria com João Sodré e Maíra Bühler, do premiado longa-metragem documentário “Elevado 3.5”, projeto selecionado pelo programa DOC-TV III do Ministério da Cultura e Rede Brasil de Televisão Pública. Além dos prêmios do júri de melhor filme “CPFL Energia / Janela para o contemporâneo”, no valor de 100 mil reais, e “Révélation Ambassade de France” no maior e mais respeitado festival de cinema documentário da América Latina “É Tudo Verdade”, edição 2007, “Elevado 3.5” foi selecionado em diversos outros festivais nacionais e internacionais. Foi também 1o assistente de direção do cineasta Rodolfo Nanni no longa-metragem documentário “O Retorno”, premiado no 12o CINEPE – Festival do Audiovisual (Recife) em 2008.

Também participou dos cursos “A Experiência de Documentar”, ministrado pelo documentarista Eduardo Coutinho; “Fotografia básica para Cinema”, coordenado pelo fotógrafo Waldemar Lima, e “Laboratório Avançado de Fotografia Preto e Branco”, oferecido pela fotógrafa e laboratorista Elizabete Savioli.

Texto e fotos extraídos do blog TOKIORI

Veja o trailler do filme aqui:

 Abertura do projeto dia 25 de julho, quarta, com a exibição do documentário Tokiori – Dobras do tempo. Debate com os realizadores, após a exibição.

Local: Associação Hiroshima Ken do Brasil, Rua Tamandaré, 800.

Data: 25 de julho, às 19:00h.

A entrada é franca, com a retirada de senha a partir das 18h.

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