Contos da Lua Vaga Depois da Chuva

Continua a mostra “Japão em 4 Cinemas” , no SESC Pinheiros. Veja aqui, a matéria completa da mostra. Amanhã serão apresentados dois filmes. O clássico dos clássicos, “Contos da Lua Vaga Depois da Chuva” (Ugetsu Monotagari), de Kenji Mizoguchi, será mostrado às 17h15. E depois “Castelo de Areia” (Suna no Utsuwa), às 19h30.

Jojoscope focou em Contos da Lua Vaga Depois da Chuva para analisar este filme que é um dos mais importantes da cinematografia japonesa, e que arrebatou o Leão de Prata no Festival de Veneza.

 

 

 

CONTOS DA LUA VAGA DEPOIS DA CHUVA

Cartaz original do filme premiado em Veneza

 

Uguetsu Monogatari

Sinopse

A história se passa em 1583, durante a guerra civil japonesa, nas redondezas do lago Biwa, a leste de Kyoto. Um pobre oleiro, Genjuro, e seu cunhado, Tobei, viajam com a família à capital da província para vender utensílios de cerâmica. Preocupado com os perigos da guerra, no meio do caminho Genjuro decide mandar a mulher e o filho de volta para casa. Na cidade, os irmãos fazem bons negócios graças a Wakasa, dama aristocrática que compra todas as peças de cerâmica. Tobei corre a comprar armas e torna-se um samurai, apesar dos protestos de Ohama, sua mulher. Genjuro vai entregar a mercadoria na mansão da dama e é suntuosamente recebido. Enfeitiçado pela misteriosa Wakasa, passa vários dias no castelo, rodeado de prazeres. Enquanto isso, Tobei apodera-se da cabeça de um general decapitado por um soldado e entrega o troféu a um exército inimigo. É feito general, porém desiste de suas tolas ambições quando descobre que a mulher foi obrigada a prostituir-se. Genjuro também cai em si quando descobre que Wakasa é um fantasma. Volta para casa e é carinhosamente recebido pela mulher. Mas ainda terá outras suspresas.

Comentário

Livremente inspirado em dois contos fantásticos de Akinari Ueda (1734-1809), Contos da Lua Vaga depois da Chuva, é talvez o filme mais célebre de Mizoguchi. O diretor, no entanto dizia preferir o desfecho da história original, na qual Tobei prossegue em sua busca de ascensão social. No filme, vemos Tobei arrepender-se de sua ambição e a mudança foi feita por exigências de mercado.

A história de dois homens que tomam caminhos duvidosos para satisfazer seus desejos desenrola-se num mundo de mistérios. A beleza de Kyo Machiko, o esplendor da mansão Kuchiki, o lago envolto em névoa e a combinação harmoniosa de melodias japonesas e ocidenais são alguns dos elementos que se integram para compor um todo de grande beleza visual.

O filme foi premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1953 e com a Medalha de Ouro do Festival de Edimburgo, em 1955.

KENJI MIZOGUCHI nasceu em Tóquio, a 16 de maio de 1898. Filho de um humilde carpinteiro, teve uma infância difícil. Viu a irmã Suzu ser vendida como gueixa, episódio que teria grande influência em sua obra, marcada pela reflexão sobre a condição da mulher na sociedade japonesa.

Em 1915, após a morte da mãe, Mizoguchi deixou a casa paterna e foi viver junto à irmã, “protegida” de um nobre. Estudou pintura em Tóquio, e depois trabalhou como desenhista publicitário para um jornal de Kobe, onde se instalou em 1917. De volta a Tóquio em 1920, tentou a carreira de ator nos estúdios Nikkatsu, mas logo passou à assistência de direção. Dirigiu o primeiro filme em 1923, época em que realizou várias adaptações literárias (Porto das Brumas, inspirado em Anna Christie, de Eugene O’Neill, e 813: As Aventuras de Arsène Lupin, da obra de Maurice Leblanc, entre outras). Vários filmes desse período se perderam; alguns dos que restam já revelam o gosto do cineasta pelos valores pictóricos e os detalhes significativos.

Em Canção da Terra Natal (1925), surge o tema da oposição entre a vida da cidade e a da província, retomado em muitas obras subsequentes. Depois do grande terremoto de Kanto (1923), Mizoguchi morou em Kyoto, onde realizou A Marcha de Tóquio e Sinfonia da Metrópole, ambos de 1929, seus primeiros filmes famosos. Em Sinfonia da Metrópole, mutilado pela censura por exprimir posições progressistas, Mizoguchi já experimenta a técnica do plano-sequência que o tornaria célebre. Na década de 30, realizou filmes de grande elaboração formal (com Taki no Shiraito, A Feiticeira das Águas, 1933; A Decadência de Osen, 1934; Oyuki, a Madona, 1935), nos quais se acentuam o realismo social e a temática da mulher subjugada pela sociedade.

Em 1936, Mizoguchi começou a trabalhar com o roteirista Yoshikata Yoda, inaugurando uma parceria decisiva para sua obra. Juntos realizaram Elegia de Osaka e As Irmãs de Gion, aclamados pela crítica e pelo público, mas condenados pelo regime militar. Relutante em realizar filmes “de encomenda” para o novo governo, Mizoguchi preferiu abordar a era Meiji (1868-1912), levando à perfeição suas técnicas características em Crisântemos Tardios (1939) e Os 47 Ronin (1941, em duas partes), este último inteiramente composto de planos-sequência.

Depois da Segunda Guerra, realizou seus filmes mais “engajados” social e politicamente, sobretudo com a atriz Kinuyo Tanaka, que já tinha interpretado A Mulher de Osaka em 1940. Sob a direção de Mizoguchi, ela se tornou a encarnação da “nova mulher japonesa”, idealista e determinada, em A Vitória das Mulheres (1946), O Amor de Sumako (1947), Mulheres da Noite (1948) e Paixão Ardente (1949), biografia de uma feminista socialista da era Meiji.

Nos anos 50, Mizoguchi atingiu um sereno equilíbrio entre arte e preocupação social, em obras como Madame Yuki (1950), Senhorita Oyu (1951), Senhora Musashino (1951) e o notável Oharu – A Vida de uma Cortezã (1952). Premiado em Veneza, este filme abriu definitivamente as portas do Ocidente ao cinema japonês, e foi seguido pelas obras mas célebres de Mizoguchi, produzidas por Masaichi Nagata, da Daiei: Contos da Lua Vaga Depois da Chuva (1953), O Intendente Sansho (1954), Os Amantes Crucificados (1954), A Princesa Yang Kwei Fei (1955) e A Nova Saga do Clã Taira (1955), brilhantes reconstituições do passado, que na visão clara e realista do diretor apontam os prolongamentos do sistema feudal no Japão contemporâneo. A crítica é ainda mais incisiva em A Mulher Infame (1954) e Rua da Vergonha (1956), seu último filme.

Vencido pela leucemia, Mizoguchi morre em 24 de agosto de 1956 em Kyoto, quando preparava o roteiro de A História de Osaka, realizado em 1957 por seu discípulo Yoshimura. Reconhecido internacionalmente pela genialidade e coerência, o mais exigente dos cineastas japoneses foi homenageado em 1980, no Festival de Veneza.

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