O adeus de Life by Kenzo

Takada Kenzo (1939-2020) era mais conhecido pelo primeiro nome. Aliás, o mundo só conhecia o primeiro nome. Kenzo é a marca do império da moda, dos cosméticos e de perfumes que este designer japonês criou, com base em Paris e pulverizou para o mundo. 
Apesar de Kenzo ter escolhido Paris para morar desde a sua juventude, nunca deixou de se inspirar pelas artes japonesas. Formado na Bunka Fashion School, em 1964, ano das Olimpíadas de Tokyo, resolveu partir para Paris, então meca da moda, sem ainda ter domínio da língua francesa. Foram necessários somente seis anos para Kenzo conseguir lançar a sua primeira exposição na Gallerie Vivienne e também abrir a sua loja, Jungle Jap. Em 1971 sua coleção foi apresentada simultaneamente em Nova York e Tokyo. Foi um retorno triunfal ao Japão, coroado com o Fashion Editors Club of Japan Awards, em 1972. Apesar do reconhecimento em sua terra natal, Kenzo preferiu manter a sua base em Paris. Em 1988 lança-se no mercado de perfumes, criando produtos icônicos, como o Flowes by Kenzo

Editorial para o lançamento da Avon Life by Kenzo

Em 1999 Kenzo decide se aposentar, embora continuasse a supervisionar seus negócios, doravante tocados por seus assessores. Em 2005, reaparece assinando uma linha de talheres, e mobiliários. Nessa nova linha de ação, foi convidado pela revista Caras para criar um conjunto de 40 louças que foram distribuídas como encarte da revista Caras, em 2011. 

Kenzo inspirou milhares de artistas e designers. Erika Kobayashi, que passou um tempo estudando na Université Paris 5 – Descartes lembra com entusiasmo como Kenzo a influenciou. “Sua marca foi uma das minhas principais referências de identificação com algo que vinha do Japão. Talvez porque Kenzo trazia o híbrido, mesclava com harmonia estampas e cores, aromas marcantes e sutis, vivacidade e elegância”. 

Em 2008 foi um dos convidados para a Semana de Cultura Japonesa, evento principal em comemoração ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi. Nessa oportunidade participou de uma sessão de Cerimônia do Chá, em recinto produzido pela Centro de Chado Urasenke do Brasil. Kenzo era praticante de cerimônia do chá, ritual que ele costumava realizar inclusive em sua residência, uma mansão na Praça da Bastilha, onde mantinha dois autênticos jardins japoneses.

Kenzo em cerimônia do chá, realizada no Pavilhão do Anhembi, em 2008. Foto: Comissão do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil | Curadoria: Jo Takahashi | Produção: Rock Comunicação | Cerimônia do Chá: Centro Chado Urasenke do Brasil

Erika Kobayashi lembra deste momento, com saudade. “Kenzo era pura presença, maravilhoso vestindo um haori-hakama na sala de chá da Semana Cultural Brasil-Japão. Lembro do seu jeito de andar, como se sentou e tomou o chá. Gestos plenos. Assim como o olhar contemplativo e quase nostálgico que me trouxe um respiro e uma sensação interna de névoa onírica. Kenzo era um estimulador de sentidos, me afetou profundamente e nesse sentido será sempre inspiração”, comenta. Erika, após trabalhar como jornalista, segue seu percurso como artista e especialista em chá (acompanhe suas atividades aqui). 

Kenzo chegando no Pavilhão do Anhembi, ciceroneado pela empresária Ângela Hirata (direita) e acompanhado por Erika Kobayashi (à esquerda, de crachá).

Kenzo Takada faleceu no domingo, dia 4 de outubro, no Hospital Americano de Neuilly-sur-Seine, na região de Paris, devido à covid-19, segundo comunicado de seu porta-voz. Incansável, Kenzo havia decidido retornar ao mundo da moda e nesta mesma semana havia lançado sua coleção Primavera-Verão na Fashion Week de Paris. 

Vejam o desfile Primavera-Verão 2021 assinado por Kenzo, e lançado no final de setembro, poucos dias antes de sua morte. 

 

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