Obentô: tradição e modernidade nas marmitas japonesas

Bentô, ou Obentô (お弁当)é um termo que se internacionaliza. São as marmitas japonesas, comida para viagem, para levar ao trabalho ou para o piquenique. Japoneses adoram comer obentô durante trajetos longos, especialmente em suas viagens de trem. Não é exagero dizer que o obentô é hoje uma categoria de alimentação e uma das fortes marcas da gastronomia japonesa. 

O obentô se desenvolveu ao longo da história japonesa e é constituído de arroz, uma receita principal, vários complementos, especialmente de legumes e verduras em conserva e sobremesa. A harmonização na apresentação, a preocupação com o equilíbrio nutricional e a representação da estação do ano são essenciais na elaboração do obentô. É um mini-universo gastronômico dentro de uma marmita.

Alimentos transportáveis existem em todas as culturas, mas no Japão esse costume adquiriu contornos muito peculiares. Hoje, a tecnologia possibilita embalagens não só térmicas, como aquelas que possuem dispositivo para esquentar o conteúdo no momento apropriado e com total segurança. É divertido procurar as marmitas Bento Box nas lojas, de formatos e design bem diversificados. Particularmente, os de madeira ostentam um charme todo especial. 

Nas livrarias, pilhas de livros e revistas sobre Obentô. E até os restaurantes de luxo se rendem a este costume, oferecendo Obentô que são verdadeiras perdições. O obentô do Kitcho, um dos restaurantes mais tradicionais do Japão é um verdadeiro luxo e pode custar até R$ 400,00. 

Gravura de Mizuno Toshikata (1866-1908), retratando uma cena de hanami (apreciação das flores na primavera). Reparem o obento box no canto direito inferior, já praticamente vazio.Da série “Sanjurokkasen” (As 36 beldades). 

Origem do Obentô 

O registro mais antigo sobre a comida transportada para fora é encontrado em “Kojiki” (古事記 Crônica de Assuntos Antigos), escrito por volta de 712, no período Nara (710-794). Lá, o obentô era chamado de Mikarehi (御粮). O arroz transportado era desidratado e durava muitos dias, mas era preciso mastigar bastante para poder engolir. Já na era Heian, surgiram os primeiros oniguiri, bolinhos de arroz, chamado Tonjiki (頓食). A denominação Bentô surgiu na era Azuchi Momoyama (1573-1603), na época do shogun Oda Nobunaga. Em sua origem era escrito como Bentô 便當 e significava “prático”. Conta a história que o general Oda Nobunaga mandava preparar alimento para os trabalhadores durante a construção do Castelo Azuchi em grandes tinas. Durante as guerras, porém, o general inovou, criando marmitas individuais para seus soldados transportarem para o campo de batalha. 

Gravura em tríptico de Chikanobu (周延 1838-1912), cena de Hanami entre a aristocracia na era Tokugawa . Esta é uma obra de 1896, já na era pre-moderna.

A caixinha de Obentô
O Obentô Bako (marmita) teve uma grande evolução na era Heian (794-1185), quando foi inventada a caixinha com compartimentos. Já na era Azuchi Momoyama começaram a ser produzidas marmitas em caixas sobrepostas, os chamados Jûbako (重箱), transportáveis e com compartimentos sob medida para introduzir o hashi, pratos para se servir e até copinho para beber o saquê. Eles eram levados pela aristocracia para os piqueniques à sombra da floração das cerejeiras na primavera, ou no outono para apreciar o colorido das folhagens. Este costume de se deliciar com receitas elaboradas especialmente para comer ao ar livre não mudou nada. Já a plebe, que não tinha condições de ter marmitas luxuosas, feitas de laca, contentavam-se com recipientes feitos com folhas de bambu. 

Hoje, as marmitas mais amadas pelos japoneses são os de madeira hinoki, que exala um perfume muito agradável e intensifica o prazer de comer. 

Caixinha de obento em madeira, as preferidas pelos japoneses.

A popularização do Obentô 
Isso aconteceu com o fim das guerras do período Sengoku. Na era Edo, caracterizado pela consolidação da paz e a ascensão da classe operária e a difusão do comércio. O povo passou a imitar a aristocracia nos piqueniques e refeições ao ar livre. Foi nessa época também que surgiram os yatai, as carroças de vendedores ambulantes que serviam sushi e tempurá, dando início à indústria da refeição fora de casa. O obentô nessa época passou a enfatizar a estética também, com combinações exuberantes, de grande apelo visual. Hoje o obentô é considerado uma categoria da gastronomia japonesa, que sintetiza todos os conceitos do washoku. 

Cena da antiga Edo (atual Tokyo), mostrando a efervescência da cidade, com várias barracas de comida (sushi, enguias grelhadas e tempura). Obra de Hiroshige (広重 1797-1858) , pintor e gravurista, célebre pela sua obra-prima “As 53 Estaões de Tokaido”. Esta obra é de 1841. 

 

Para transportar o obentô 
Aqui também, a sabedoria japonesa está presente. Trata-se do furoshiki, o pano de embalar. Além de ser prático, o furoshiki pode ser escolhido de acordo com o clima, expressando a sazonalidade. Muito cool e atual, sintonizado com o momento em que precisamos pensar no reuso consciente dos materiais. 

A sua marmita fica assim, embrulhada com furoshiki. Curta o detalhe da alcinha para transporte, feita com as duas abas do mesmo pano.
O furoshiki, além de permitir o transporte da marmita, serve de toalha de mesa na hora de comer.
Infinitos padrões de desenhos e cores para você se divertir escolhendo a embalagem.

Para aprender a montar um Obentô Box 

Na 23ª edição do Curso de Comida Japonesa Caseira, a professora Marlene Fukushima, do buffet Hanayori, vai ensinar a preparar seis receitas para montar e decorar um obento box, no domingo 6 de outubro, das 8h às 13h. A famosa marmita japonesa é conhecida pelas porções elaboradas, balanceadas e esteticamente bonitas. “Uma boa marmita japonesa precisa de atenção aos detalhes para oferecer variedade de cores, sabores, texturas”, afirma a professora.  
As seis receitas são: yakissoba, kara-ague (frango frito estilo japonês), gohan (arroz japonês), kinpira gobo (bardana refogada), brócolis com abura-ague (tofu frito). O professora Marlene anda vai dar uma demonstração extra: como fazer furoshiki, a arte de embrulhar com tecidos. 
A omelete japonesa é um dos itens obrigatórios no Obentô japonês. Levemente adoçada, ela provoca uma variação no sabor do conjunto, que em sua maioria é composta de receitas salgadas e torna a refeição mais divertida.

A proposta é que qualquer pessoa possa preparar os pratos, seja para um piquenique ou mesmo levar para o trabalho. Não é preciso ter experiência para participar da oficina. “O mais importante é a vontade de fazer bem feito”, afirma Marlene.

O frango kara-aguê também é um dos itens mais populares das marmitas japonesas. Sequinha e crocante por fora e suculenta por dentro, combina muito bem com o arroz.
No Japão, existe uma infinidade de bentôs (dos mais simples ao extremamente elaborados) que são preparados em casa ou vendidos em lojas de conveniência. Cada um com seu próprio propósito e configuração apropriada. 
O yakissoba é um prato completo e ele por si já é suficiente como refeição, mas na proposta da professora Fukushima, ele é um dos itens que compõe o Obentô.
 
Cardápio
Vamos aprender a FAZER e DECORAR um BENTO BOX

Yakissoba
Kara-ague ( (frango frito estilo japonês)
Omelete japonesa
Gohan (arroz japonês)
Kinpira gobo (bardana refogada)
Brócolis com abura-ague (tofu frito)
Extra: como fazer furoshiki, a arte de embrulhar com tecidos tecidos 

Serviço

6 de outubro, domingo, das 8h às 13h
Rua Primeiro de Janeiro, 53 (ao lado do metrô Santa Cruz)
Valor: R$ 330 (inclui ingredientes, apostila e almoço)
Whatsapp: 11-97130-3335
 
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