A “deliciosidade” de um espaço

Podemos detectar gosto e sabor nos espaços arquitetônicos?

Texto originalmente publicado na Revista Arquitetura & Construção Junho 2014

Jo Takahashi

 

Espaço tem gosto? Aquele espaço que acomoda bem o corpo e a alma e que dá aconchego e paz é chamado de espaço gostoso. “Que delícia de espaço!”. Ouvimos exclamações como essa quando nos deparamos com um espaço charmoso e acolhedor. Então, sim, é bem provável que o espaço se alinhe, em sintonia, com as qualidades sensitivas que o nosso paladar consegue captar.

Koshino House, projeto de Ando Tadao Foto: Gonzalo Perez

A designer de moda japonesa Junko Koshino lembra que a palavra delícia, em japonês, se escreve com dois ideogramas: beleza e sabor. “Nessa ordem”, enfatizou a estilista. O apelo visual é fundamental também na comida. Não são poucos os que dizem que a comida japonesa deve ser contemplada, antes de ser degustada, e o seu caráter visual foi também um dos atributos pelos quais a culinária japonesa foi registrada na Unesco, como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade, em dezembro de 2013.

Um dos pratos elaborados para o evento Omotenashi em janeiro de 2014. Concepção visual: Junko Koshino, culinária: chef Shin Koike Foto: Rafael Salvador

Mas o que é de fato, um gosto profundo, esse “belo sabor”? Os japoneses conseguiram descobrir, cientificamente, que o paladar humano consegue distinguir, além do doce, do salgado, do azedo e do amargo, um quinto gosto, que foi denominado como Umami. Trata-se da sensação mais profunda do gosto, aquela que nos faz salivar, e dá um prolongamento no paladar. Por ser mais profunda, ela certamente irá permanecer mais tempo na memória afetiva. Uma boa comida, que nos leva àquele estado de levitação, é assim, mais rica em umami. 

E é possível uma correspondência desta sensação também nos espaços? Há um umami, um quinto gosto também para a arquitetura? Acreditamos que sim. Para começar, espaços que revelam mais do que o apelo visual. Não estaremos nos limitando às regras da simetria, da limpeza visual, da coerência das formas ou dos critérios de seleção dos materiais construtivos. Mas algo que transforme tudo isso em algo mais inusitado e meditativo. Talvez até transgredir as simetrias, as coerências e certos dogmas da arquitetura para construir algo menos óbvio, mais sugestivo. Até porque o homem que habita estes espaços, na maioria das vezes não é lá muito simétrico e nem muito coerente.

Umami na arquitetura tradicional japonesa: jogo de claros e escuros, assimetrias, pequenas provocações.

A “deliciosidade” dos espaços pode estar numa penumbra, num cantinho translúcido, num caminho curvo e sem perspectivas, daqueles que lhe fazem imaginar o que virá pelo frente. Espaços de sugestão, carregados de um certo mistério. Daí, o charme de um gosto profundo também na arquitetura. Beleza e sabor.

A deliciosidade de um espaço.

 

 

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