A obra máxima de Ozu

Paralelismos e elipses: o rigor estrutural da estética de Ozu

SESC Pinheiros exibe a obra favorita do próprio diretor. Uma insuperável obra prima.

Pai e Filha (晩春)

Produção:Shochiku

Direção: Yasujiro Ozu

Argumento: Kazuo Hirotsu (baseado na obra “Chichi to Musume”)

Elenco: Chishu Ryu (Shukichi Somiya), Setsuko Hara (Noriko), Haruko Sugimura (Masa Taguchi)

Ano de produção: 1949

Dureção: 108 min Preto e Branco

Sinopse: O professor Somiya ficou viúvo e nunca mais se casou. Vive com sua filha Noriko, única filha. A filha não parece animada em casar, preferindo ficar com o pai. Preocupado com o destino da filha, Somiya resolve simular um namoro, e obrigar a filha a aceitar uma proposta de casamento. Então se revelam as reais intenções do pai.

Comentário Jojoscope sobre o filme

Ozu recebe com este filme, pela quinta vez, o prêmio máximo da revista Kinema Jumpo. Pai e Filha se torna o protótipo perfeito das obras de Ozu nos anos 50 e 60.

O filme cristaliza normas intrínsecas (formais e temáticas) da estética de Ozu, e serve de matriz para variações posteriores (Também fomos felizes, Era uma vez em Tóquio, Dias de Outono, e A Rotina tem seu Encanto).

A última viagem do pai e da filha, antes do casamento. O peso do silêncio para dizer o indizível

Para alguns, Ozu teria atingido os limites de sua capacidade formal, procurando refinar sua estética em sucessivas variações. Após a segunda guerra, surgem novas leis de casamento e outras que alteram a estrutura tradicional familiar. Pai e filha, assim como os filmes seguintes, adota essa nova visão liberal das relações familiares, que explicita a figura da mulher como objeto de troca no patriarcado decadente. A mulher adquire igualmente a função de sustentar a unidade familiar, difícil em vista da dicotomia entre a vontade social e individual, casamento por amor ou arranjado.

Uma das sequencias magistrais de Pai e Filha. Veja o video abaixo

Neste filme estão combinados, num conjunto equilibrado, vários componentes do estilo Ozu, como as simetrias macroestruturais, que criam uma geometria formal abstrata para a narrativa; os paralelismos como princípio-chave de construção; os faux-raccords; as elipses deliberadas. As dicções dos gêneros gendai-geki (narrativas contemporâneas), o home drama (o drama doméstico) e o haha mono (história de mãe, adaptada à ideia de pai como figura central).

Cena final: corrosiva solidão

Por fim, cabe lembrar que Pai e Filha era um dos filmes preferidos do próprio Ozu. Para nós, um dos mais tristes e melancólicos filmes de todos os tempos. Uma sensibilidade corrosiva,

Impressionante sequencia no Teatro Nô. Nos primeiros 4minutos, o rigor do teatro tradicional se alinha ao rigor formal de Ozu. Aos 4min e 25 seg, o pai cumprimenta uma mulher desconhecida. A filha desconfia tratar-se de um flerte, ou quem sabe, uma pretendente para o seu pai viúvo. A filha vai desmoronando, minada pela desconfiança, e pela sensação de abandono.

Serviço:

Filme integrante da Mostra O Japão em imagens e sons

SESC Pinheiros

Exibição nos dias 21 de Junho (15h), 19 de Julho (17h15)

SESC Pinheiros Rua Paes Leme, 195 Pinheiros São Paulo www.sescsp.org.br

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